Resenhas

King Krule – Man Alive!

Após três anos, britânico retorna com o disco mais complexo e maduro de sua carreira

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Ano: 2020
Selo: Matador
# Faixas: 14
Estilos: Rock Alternativo, Jazz Rock, Pós Punk
Duração: 41'
Produção: Archy Marshall, Dilip Harris

Três anos após o ótimo The Ooz, Archy Marshall retornou com Man Alive! (2020), seu terceiro trabalho sob o pseudônimo King Krule. Garoto prodígio, começou a compor e gravar logo aos 12 anos de idade e, com seus dois primeiros álbuns, angariou admiradores que transcenderam com sobras as terras britânicas, além de cair nas graças de veículos como a Pitchfork – Krule foi digno de duas resenhas elogiadíssimas no portal. O status de sensação Indie tão jovem o fez passar por aquela inevitável elevada de sarrafo que persegue artistas que despontam com celebradas estreias. E Man Alive!, de modo diferente de seus antecessores, cumpre, sim, a expectativa.

A habilidade como compositor aparece de maneira mais complexa e madura, mas segue com as marcas que o tornaram uma figura tão autêntica durante a última década: o barítono intenso de uma voz que parece não pertencer àquele corpo; um fatalismo de frequentador solitário de balcão de bar à la Tom Waits; uma entrega que alterna agressividade e melodia aos moldes de Joe Strummer; e flertes com o minimalismo da New Wave, os improvisos do Jazz e os andamentos do Hip Hop. Krule, entretanto, coloca seus talentos sob uma perspectiva menos política, jovial e “inflexível” do que a encarnada em The Ooz. E é provável que essa nova etapa tenha um motivo. Em março do ano passado, King Krule e sua parceira, a fotógrafa Charlotte Patmore, deram boas-vindas à primeira filha, Marina.

Como o título anuncia, ele está mais enérgico e disposto. Ou simplesmente: mais adulto. Mas a persona soturna ainda é marca registrada, principalmente durante a primeira metade do repertório, na qual se destacam “Cellular”, “Stoned Again” e “Comet Face”. Na última, ele canta “Woke up, Peckham Rye at half five/ Boy on the ground with his pants down/ What happened to him in his past life?” (“Acordou, Peckham Rye às cinco e meia/ Garoto no chão com suas calças abaixadas/ O que aconteceu com ele em sua vida passada?”). O relato sobre as noites de bebedeira em Peckham Rye (região ao sul de Londres) soa como vindo de alguém, mesmo angustiado, olhando pelo retrovisor. Krule vive um outro momento, o que não torna olhar para trás menos doloroso.

O sol se abre um pouco, meio tímido, a partir de “Alone, Omen 3”, uma otimista mensagem contra a solidão, e na sequência matadora formada por “Slinky”, “Airport Antenatal Airplane” e “(Don’t Let The Dragon) Draag On”. Fica evidente o talento de Krule para criar ambientações psicodélicas/oníricas, mas que são capazes de resguardar um groove, caminhando por campos harmônicos semelhantes àqueles atualmente traçados por gente como Tyler, The Creator e Frank Ocean. “Underclass”, uma das grandes canções do disco, se aventura pelo Jazz (com presença marcante do saxofonista Ignacio Salvadores) e tem Krule mostrando sua faceta de crooner-de-smoking-cantando-num-microfone-dinâmico-vintage.

Não é uma audição trivial e um repertório um pouco mais enxuto talvez ampliasse o caráter ecumênico de Man Alive – mas o rapaz que completa 26 anos em agosto, inegavelmente, faz questão total de cada palavra, nota, berro e voz melodiosa. E isso acaba fazendo tudo valer a pena.

(Man Alive! em uma faixa: “Alone, Omen 3”)

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ARTISTA: King Krule
MARCADORES: Resenha