Resenhas

Kings of Convenience – Peace or Love

Quase 12 anos depois, duo norueguês retorna com o que sabe fazer de melhor

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Ano: 2021
Selo: EMI/Universal
# Faixas: 11
Estilos: Indie, Folk
Duração: 37'

Quiet Is the New Loud (2001), Riot on an Empty Street (2004), Declaration of Dependence (2009), Peace or Love. Já a partir de seu título, o ouvinte familiarizado com a obra do duo norueguês Kings of Convenience percebe que o álbum se faz digno de figurar nesta discografia, uma suspeita que se confirma também em poucos segundos após o play – mesmo se ele for escutado em ordem aleatória. Isso porque os 12 anos que separam o novo disco de seu anterior não trouxeram quaisquer mudanças ao som da dupla. Pelo contrário, Peace or Love honra nos mínimos detalhes a musicalidade que rendeu tantos fãs e elogios a KoC nos últimos 20 anos em uma obra.

Tudo aqui é feito dentro do escopo já muito bem definido de timbres, arranjos, harmonias e temáticas estabelecido nos discos anteriores. Com os violões como base, as novas músicas trabalham as harmonias vocais de Eirik e Erlend em uma ambientação acústica quase sempre sem percussão – às vezes, o ritmo é marcado pelo próprio bater da mão no violão, e a bateria é geralmente bastante discreta quando dá suas caras. O violino, que tanto apareceu no disco anterior, volta aqui e adorna bons momentos, como o single “Rocky Trail”, que ganha até um suave xilofone ali no meio, ou “Fever”. Uma audição desatenta do álbum, contudo, pode até deixar registrado na memória que todas as músicas vêm no formato “voz e violão”.

É um teor orgânico que combina com a sinceridade que respinga das letras, outra característica marcante em KoC que também ressurge com grande familiaridade. Primeiro porque o tom narrativo, descritivo e honesto (até quando dói) dos versos retorna em cheio ao longo das 11 novas canções. Mas também porque, e isso é muito mais interessante, há a impressão de que não só o eu-lírico é o mesmo das faixas antigas, mas o próprio interlocutor de antes está aqui, aquele que precisava de uma forcinha, um encorajamento, um ombro amigo. “Rumours”, “Song About It” e “Ask for Help” são três dos momentos em que essa dinâmica acontece.

Esse fenômeno escancara a caixa de Pandora que é observar Peace or Love à luz das composições antigas do duo, e causa a impressão de que muitas delas estão de volta de uma forma ou de outra nas novas faixas. “Angel” começa como “Know How” e se parece com “Peacetime Resistance” em seu desenvolvimento (do segundo e terceiro disco, respectivamente), enquanto “Killers” compartilha o mesmo DNA de “Surprise Ice” (também de Riot on an Empty Street) e “Rumours” lembra muito “I Don’t Know What I Can Save You From” (do primeiro álbum). Até Feist está de volta para brilhar em duas faixas (“Love Is a Lonely Thing” e “Catholic Country”), assim como fez na obra de 2004.

O que há, então, no disco que o faça inteiramente “novo”? Fora as composições inéditas, é possível afirmar que nada. De novidade mesmo há um tratamento sonoro (na mixagem e na masterização) bastante contemporâneo que faz com que as faixas saltem aos ouvidos com (ainda) mais volume nos graves e clareza nos agudos que suas anteriores (feitas em um outro momento fonográfico, no qual se trabalhava com o formato CD em mente, enquanto as novas dão melhor conta da compressão do streaming), mas isso é o de menos, sinceramente. O que justifica seu lançamento, entretanto, é principalmente a qualidade com que essas músicas se apresentam. As harmonias seguem excelentes, a expressividade dos violões em faixas como “Comb My Hair” impressiona e aquele clima de uma simplicidade que se arrasta de forma quase anticlimática, daquela sinceridade que chega a ser constrangedora, continua conquistando por sua simpatia.

Para os fãs de Kings of Convenience, Peace or Love não é um mero prato cheio, mas uma refeição completa por trazer todos os sabores, aromas e texturas que tanto fizeram falta nessa década e pouca de saudades. Chega a ter cara de obra póstuma, por prolongar a vida de sua discografia já existente ao invés de apresentar novos caminhos para sua música, é a ressurreição da banda à mesma vida que ela tinha antes. A cada audição, fica a impressão de que, em 12 anos entre os discos, a banda ou falhou miseravelmente em encontrar novas inspirações, ou teve enorme êxito justamente por encontrar a si mesma naquilo que faz de melhor. O acalanto na alma que vem com “Angel” sugere que seja o segundo caso.

(Peace or Love em uma faixa: “Angel”)

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.