Resenhas

Lake Street Dive – Bad Self Portaits

Utilizando-se de referências do passado e misturando com uma abordagem moderna, disco da banda é destaque

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Ano: 2014
Selo: Signature Sounds
# Faixas: 11
Estilos: Light Jazz, Pop Rock e Neo Soul
Duração: 39:28
Nota: 3.5
Produção: Sam Kassirer

Há várias formas de homenagear bandas, sonoridades e épocas dentro da música Pop. Geralmente elas resvalam para a cópia sem muito valor mas, de vez em quando, podem assumir contornos bastante interessantes. Vejam o caso de Lake Street Dive, um quarteto de Boston, EUA. Assim como formações do calibre de Alabama Shakes ou My Morning Jacket, que são revisionistas por excelência, mas donas de talento individual suficiente e espertas o bastante para não parecerem clones sem alma, Lake Street Dive se vale da voz privilegiada de Rachel Price e de uma noção bastante sólida de como escrever arranjos e tocar como se estivessem saindo de uma sessão de gravações nos lendários estúdios do sul dos Estados Unidos, como um Muscle Shoals ou mesmo Stax.

Tal comparação não é exagero. Rachel Price (voz), Mike Olson (guitarra, trompete), Bridget Kearney (baixo acústico) e Mike Calabrese (drums) dividiam admiração pelos mesmos artistas e se conheceram na escola. A banda se formou no New England Conservatory Of Music, em 2004, e começou com a proposta de fazer música Country livre de formatos e padrões já estabelecidos. O conceito evoluiu após os primeiros EPs, gravados entre 2007 e 2008. A atenção da mídia veio com um vídeo que a banda publicou no YouTube no qual aparecia interpretando uma versão de I Want You Back, canção do repertório de Jackson 5. Daí pra frente, o grupo ganhou mais corpo, gravou dois disco, um EP de versões e este belo terceiro trabalho. O clima é retrô, mas sem qualquer exagero. O disco começa com a faixa título, que começa com groove clássico de Blue Eyed Soul e a voz segura e ampla de Rachel tomando conta de tudo. Os arranjos de vocais de apoio dão a tônica e a canção soa como tudo aquilo que gente como Joss Stone sempre quis fazer mas só arranhou a superfície. Stop Your Crying é a próxima parada e já inicia com bateria vigorosa, levada que lembra gravações douradas dos recônditos do Southern Rock em sua interseção com a música negra, algo que bandas mais interessantes como o Doobie Brothers foram capazes de fazer.

Um groove mais silencioso e malandro conduz Better Than, que traz a voz de Rachel numa modalidade bem mais suave e plácida, porém nunca sem mostrar que está totalmente no comando da situação. Há belas intervenções de trompete ao longo da canção. Rabid Animal é pura beleza de verão ideal em meados de 1969 e todo o esplendor das canções com arranjos feitos para girl groups ao longo da década de 1960 surge em You Go Down Smooth. Já a faixa seguinte, Use Me Up, tem um clima aerodinâmico em seu instrumental que sugere uma maturação nos tonéis de carvalho da antológica Hitsville USA, ou Motown Records, para os iniciados. O batismo da estrada e dos caminhos empoeirados vem com o groove clássico de Bobby Tanqueray, propulsionada por um naipe de assobios, porém, devidamente alicerçada por uma levada sólida, mas adaptável.

Acenos ao Gospel anunciam a chegada da próxima canção, Just Ask, envolta em corais e pontuada por uma guitarra saturada mas respeitosa. Seventeen, homônima de canção de Stevie Nicks, surge em seguida, com jeito de música que frequentaria o top ten de alguma parada obscura numa emissora de rádio AM de, digamos, Birmingham, Alabama. What About Me é pura felicidade musical, com jeito de ensaio ao vivo no estúdio e arranjo que dá a impressão que estamos ouvindo uma demo tape muito próxima da versão final, enquanto o fecho do disco vem com Rental Love, movida por groove pianístico com aura beatle e canto doído e pungente de Rachel. Guitarras entram aqui e ali, com respeito e propriedade.

Este terceiro disco de Lake Street Dive reconecta a tradição de boas cantoras americanas e amplia a ideia de revisionismo musical, acenando com a possibilidade concreta de invenção de algo novo a partir dos grandes clássicos do passado. Em outras palavras, uma belezura.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.