Resenhas

Lana Del Rey – Honeymoon

Cantora lança seu álbum mais consistente e parece confortável dentro da identidade que construiu

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Ano: 2015
Selo: Polydor
# Faixas: 14
Estilos: Pop, Pop Alternativo
Duração: 65:06
Nota: 3.5

“We both know that it’s not fashionable to love me”. Lana Del Rey abre Honeymoon com os dois pés no peito de quem a ouve apenas para criticar. Responder a este tipo de ouvinte tem sido algo cada vez mais comum entre as cantoras Pop, mas ao invés de partir para uma postura mais agressiva ou de confronto, ela aborda isso com sutileza e inteligência raras, como que dizendo “que tal se a gente tentasse relevar o fato de que você me acha artificial e superficial e pulássemos pra parte em que ouvimos a minha música?”

É interessante pensar como Lana se tornou símbolo de toda essa “falsidade”, um exemplo de imagem fabricada. Tudo isso por terem descoberto seu passado diferente e terem percebido a criação de uma personagem, por mudanças físicas que fez, participação em polêmicas, namoros e relacionamentos inusitados, entre outras coisas. Como se esta mesma história não tivesse se repetido inúmeras vezes nas últimas décadas e não fizesse parte da carreira de praticamente todas as artistas mais comerciais que surgiram nos últimos anos – de Madonna a Britney Spears, passando por Rihanna e Miley Cyrus.

O que é esta verdade que todos procuram? Lana Del Rey é consistente na identidade que tenta nos mostrar, desde o momento em que surgiu. A estética de suas roupas e clipes, seu som, as capas de seus discos, a postura de dar poucas entrevistas, seu comportamento em shows, tudo isto ajudou a construir esta imagem que chega a todos de forma muito parecida, independentemente se interpretada de forma positiva ou negativa por cada um. A partir do momento que sua mensagem funciona pra muita gente, de meninas adolescentes a Kanye West e Dan Auerbach (dois fãs assumidos da cantora), não acho que verdade ou autenticidade seja o objeto mais relevante a ser discutido.

Seu último disco, Ultraviolence, mostrou a cantora se arriscando um pouco mais e tentando ver onde sua música conseguia chegar. Por isso, o disco tinha, individualmente, algumas canções melhores do que as de Honeymoon. Mas este novo disco é o auge da criação da identidade de Lana, a execução mais redondinha de seu conceito e por isso o melhor disco para entendê-la.

Desde a icônica Video Games, fica difícil não achar que Lana estabeleceu uma personalidade muito própria. É possível questionar a profundidade de suas letras, a futilidade do que escolhe retratar, mas aquela atmosfera romântica, sexy, épica e sofredora, combinada com suas variações de voz, já tornaram seu som muito particular e inconfundível.

Tudo isso está presente aqui. A voz de Lana está equilibrada, sem exagerar demais na montanha russa entre seus graves e agudos, as melodias incorporam Rock, Jazz, Música Eletrônica, mas sem ser nenhuma das três coisas e é muito bem produzido, com alguns elementos inseridos nas músicas de forma bem sutil, ajudando no clima das canções, sem querer protagonizar. Como os instrumentos de sopro que surgem quase que como intrusos em Terrence Loves You e Art Deco, colaborando pelo clima meio sonhador de suas faixas, aquele limite entre o brega e o cult, entre James Bond e David Lynch.

Difícil pensar em Lana Del Rey sem imaginar que o amor seja sua temática principal. Mas como sempre, aquele amor obsessivo, intenso e também decadente e degradante. Ela ilustra perfeitamente o clichê da celebridade Hollywoodiana, praticamente uma versão feminina e dramática do personagem Bojack Horseman, da série de animação do Netflix.

O som de Lana, no entanto, ainda apresenta um problema que a impede de ultrapassar uma barreira invisível de sucesso que a persegue. É tudo muito monotemático, dos temas e metáforas às melodias. Quando decide sair dessa linha, o resultado é fraquíssimo, como em High By The Beach, primeiro single revelado do disco, que depois de ouvi-lo em conjunto com o restante da obra, pareceu mais uma piada de mau gosto da cantora. Mesmo assim, só o fato de ser uma das poucas artistas do Pop comercial a optar por baladas românticas e não por hits pras pistas já pode ser encarado como um respiro bem interessante.

Honeymoon comunica tudo o que Lana sempre quis comunicar da forma mais consistente desde o início de sua carreira. Ouvido em conjunto com Ultraviolence pode sim mudar a percepção de muitos em relação a ela e são um passo inicial interessante para estabelecer e consolidar sua mensagem e definir como lembraremos desta sua história na cultura Pop daqui há alguns anos.

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BOM PARA QUEM OUVE: Blood Orange, Thiago Pethit, Lykke Li
ARTISTA: Lana Del Rey
MARCADORES: Ouça, Pop, Pop Alternativo

Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.