Resenhas

Lana Del Rey – Ultraviolence

Em uma atmosfera decadente, Lana abriga seu novo trabalho onde dormem sentimentos mais obscuros e introspectivos

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Ano: 2014
Selo: Universal Music
# Faixas: 11
Estilos: Pop, Indie Pop, Pop Alternativo,
Duração: 51:24
Nota: 3.5

Quando falamos de Lana Del Rey, um peso enorme acaba caindo em cima do nome e as mentes são logo bombardeadas de adjetivos. Ultraviolence é o segundo álbum da carreira da cantora, e vem como sequência ao disco mais hypado de 2012, Born To Die. Inclusive, seria injusto não dizer que Lana é uma das artistas mais populares e cotadas da nova geração. Ela é uma espécie de deusa que arrasta um número impressionante de fãs, que a coroaram rainha com flores na cabeça e a seguiriam até o inferno, se necessário.

Sua carreira apontou mesmo quando o clipe de Video Games surgiu no limbo da Internet no segundo semestre de 2011, aparentemente vindo do nada. Não demorou até que ele fosse um dos vídeos mais acessados, mesmo que totalmente caseiro e sem a metade do glamour das grandes produções que viriam a seguir. Pelos compartilhamentos, sua música passou a ser apreciada por milhões de pessoas, sedentas por mais. Lana tinha assim os aplausos e holofotes virados para si.

Desde então, nos últimos três anos, sua carreira sofreu cada vez mais e mais exposição. Lana cruzou a barreira do alternativo há muito tempo e tornou-se integrante do cenário Pop, ainda tentando manter suas raízes, mesmo que longe das grandes estrelas que exaltam o estilo. O estranho é que por mais que Del Rey esteja dentro desta cena, é difícil ou quase impossível associá-la com outra cantora, o que me faz concluir que Lana, mesmo não sendo digna de notas máximas, é a melhor e pior no que faz em seu meio, já que não existem muitas comparações possíveis à sua figura. Fato é que ela nunca soou tão convincente antes com uma série de músicas como neste álbum.

Esse posto que Lana ocupa é só dela e podemos senti-lo em Ultraviolence envolto de solidão e um sentimento idealizado e romântico de sua própria decadência, transbordando obscuridade em pouco mais de 50 minutos de audição. Com onze músicas, cabe ao ouvinte escolher entrar na viagem soturna e melancólica de Del Rey e responder às suas letras e voz característica. Em uma entrevista recente, Lana afirmou que desejava já estar morta, lembrando seus grandes ídolos que morreram aos 27 anos, como Amy Winehouse e Kurt Cobain – por coincidência, ela está prestes a completar 28 anos. “Eu não gostaria de continuar com isso, mas eu sou assim. É apenas como eu me sinto. Se não fosse assim, eu não diria. Eu ficaria com medo se eu soubesse que iria morrer, mas…”, disse a cantora, que comparou sua vida como “um verdadeiro filme de merda”.

Coincidentemente, o título do álbum é uma referência ao romance polêmico de Anthony Burgess Laranja Mecânica. O termo é bastante usado pelo protagonista Alexander DeLarge, o que aponta uma direção para a sonoridade do álbum, ou até uma similaridade com o personagem. Na história, Alex narra suas aventuras violentas usando uma linguagem de gírias, levando sua gangue em farras de “ultra violência”, praticando atos horríveis por nenhuma razão melhor, além do fato de sentir-se bem com seu comportamento fora dos padrões aceitáveis perante à sociedade. Ironia ou não, DeLarge, tem um extravagante prazer em ouvir música, mas acabou sendo destruído por uma capacidade adquirida: no final, ele associa sua música preferida com a violência, ficando doente quando a ouve, sendo esta uma das coisas que o destroi. Aqui, lembro do comportamento autodestrutivo dos ídolos de Lana além de seu próprio, uma vez que a cantora já viveu o vício em álcool e drogas muito cedo em sua vida.

E é nessa atmosfera decadente que Lana abriga seu novo trabalho. Ali dormem os sentimentos mais obscuros, tristes, perturbadores, introspectivos. Muito sabemos de Lana, mas ao mesmo tempo, sabemos muito pouco. Tudo pode ser uma jogada de marketing e não temos domínio sobre a verdade a seu respeito. Ela, na verdade, se tornou uma projeção de nossos desejos, pensamentos, ou da nossa própria raiva. Del Rey pode ser o que você quiser que ela seja. Talvez essa seja uma das coisas que a faz diferente de outras artistas. Lana é a tristeza do Pop, a música que toca depois da festa acabar, e você está bêbado ou sozinho em algum lugar no canto do bar, quando a maioria das pessoas já foram embora. Aqui, ela encarna mais o personagem que talvez gostaria de ter vivido em Born To Die, muito mais vivo e aperfeiçoado musicalmente.

Dan Auerbach, um dos nomes por trás da dupla The Black Keys, tem seu papel como produtor de uma parte significativa do álbum. Segundo uma entrevista, Del Rey originalmente pensou que tinha terminado o álbum por volta de dezembro do ano passado, mas depois de conhecer Auerbach, ela se deu conta de que precisava gravar tudo de novo com novas técnicas. Ele pareceu ter sido o parceiro criativo ideal para Lana, tornando o álbum mais rico e bonito, com toques de Psicodelia, guitarras vibrantes e bateria fúnebre, dando (ironicamente) mais vida às canções.

A primeira parte do disco traz músicas com letras muito carregadas de sentido e sentimentos, além da clara produção de Dan. Cruel World abre o disco em grande estilo, dando uma introdução do que está por vir. Logo no primeiro trecho, “Share my body and my mind with you / That’s all over now / Did what I had to do / ‘Cause it’s so far past me now”, Lana parece se despedir de algo, alguém ou até de si mesma, preparando o ouvinte para as próximas músicas, que seguem o mesmo caminho. A faixa-título, Shades of Cool, Brooklyn Baby e West Coast trazem a mesma atmosfera sombria, com guitarra e bateria marcadas. Ultraviolence, inclusive, canta “Jim told me that he hit me and it felt like a kiss / This is ultraviolence / Give me all of that ultraviolence”, lembrando um pouco do sentimento de DeLarge. Brooklyn Baby, inspirada em Lou Reed, é uma das únicas que quebram com a sonoridade mais depressiva, mas ainda carregando o tom soturno, com um ar de respiro no meio das outras e preparando para as intensas West Coast e Sad Girl. Pretty When You Cry é a canção de amor perdido mais marcada de todo o registro: a tristeza está escancarada em cada verso. E a música é como uma divisão de águas no disco: a partir daqui, a coisa muda um pouco.

Mais para o final do álbum, nos deparamos com canções mais rasas e com menos significado, parecendo até um pouco deslocadas, como Money Power Glory e Fucked My Way To The Top. Porém, são faixas que vão de encontro a pensamentos e realidades existentes, talvez até seguidas pela própria Lana, apesar de extremamente limitadas e vazias. Em seguida, Old Money vem quebrar com a atmosfera criada pelas anteriores. Com um piano e violinos bem diferentes do começo do álbum que trazia a pegada mais Auerbach, essa faixa lembra muito as antigas de Lana com um certo glamour e menos “sujas” do que as anteriores. The Other Woman, cover de Nina Simone, traz uma sonoridade também mais clássica, encerrando o álbum, aparentemente sem grandes pretensões, mas termina como uma das músicas mais bonitas de todo o registro por sua letra extremamente poética, lembrando fortes influências dos anos 50 e 60.

“I’m talking about my generation / Talking about that newer nation / And if you don’t like it / You can beat it / Beat it, baby”. É isso que Del Rey é, da forma mais crua possível. Ela canta sobre os sentimentos de toda uma geração, talvez perdida e solitária, fazendo o que só ela sabe fazer, de uma forma sádica e decadente. É o primeiro registro de Lana que realmente abraça seu real formato, sem se preocupar com música conceitual, mas buscando ser mais real do que antes. Não traz uma evolução na voz de Lana, nem suas letras querem provocar ou parecerem poéticas, dando diversos significados ao ouvinte. Querendo ou não, é uma forma que ela encontrou de sair da caixinha, da redoma imposta pela crítica, dentro dos seus próprios limites em seu estilo e capacidade, sendo ainda uma das figuras mais rentáveis da nova geração consumidora de música Pop e alternativa.

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Autor:

Largadora por vocação. Largou faculdades, o primeiro namorado e o interior. Hoje só quer saber de arte, cinema, música, fotografia e sair correndo pelo mundo.