Resenhas

Land Of Talk – Indistinct Conversations

Sensível, novo disco de Elizabeth Powell se escora no Dream Pop enquanto mergulha profundamente em eventos do cotidiano

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Ano: 2020
Selo: Saddle Creek
# Faixas: 11
Estilos: Dream Pop, Indie Rock, Shoegaze
Duração: 37'
Produção: Elizabeth Powell, Mark “Bucky” Wheaton, and Christopher McCarron

Elizabeth Powell é daquelas artistas que entendem contar uma história não depende apenas da narrativa em si, mas, sobretudo, de como ela é contada. Seguindo uma tradição que alia Dream Pop à faceta singer-songwriter, desde cedo seus discos estão repletos de construções que conduzem ouvintes por diferentes caminhos. Por meio de uma sonoridade que traz sensação de suspensão e voo (a partir de texturas etéreas e reverberadas), mas que também nos afunda no hiper-realismo e na dureza de letras sinceras e comoventes, Land Of Talk é o campo onírico onde Elizabeth tem total autonomia e maestria para contar suas histórias. Um dos melhores exemplos disso é seu disco de 2017, Life After Youth, que trouxe uma personificação muito vívida (e até mesmo cruel) do que é a entrada na vida adulta, quando abandonamos a juventude e encaramos os fardos de gente grande.

Agora, após uma série de turnês (as quais renderam dois shows no Brasil) e todo um replanejamento de lançamento após as consequências do COVID-19, Elizabeth tem novas histórias a contar. E parece que estes três anos poliram ainda mais sua capacidade narrativa. Indistinct Conversations retoma o cotidiano como matéria-prima de suas letras, mas não o cotidiano supérfluo e fútil. Elizabeth está interessada em conversas e eventos aparentemente mínimos, mas que são insistentes e, por fim, arrebatadores. Que ficam martelando nossas cabeças. Um fim de semana pensativo, um show que não esquecemos, um planejamento de futuro, um pensar diferente a respeito daquela pessoa. Por mais simples que o evento possa ser, a compositora nos mostra que há um mundo de sentimentos escondidos nas entrelinhas de nossas rotinas.

E essa percepção das sutilezas profundas tem reflexo tanto nas histórias quanto na sonoridade. O Dream Pop, que por muitas vezes passa por uma roupagem de “som adolescentesco”, é apenas o nível superficial dos eventos. É aquele momento em que nossos olhos fazem uma leitura das aparências. Porém, a particularidade de cada elemento que forma o gênero traz as vicissitudes necessárias para nos seduzir. É como se Elizabeth vestisse um Indie comum para baixarmos a guarda, mas assim que prestamos atenção nos refinamentos de sua música, já estamos totalmente envolvidos e tomados pela emoção. É, de fato, uma grande montanha-russa de sensações.

Elizabeth escolheu a leve balada “Diaphanous” para começar sua história, em acordes simples de guitarra, mas com um trágico vocal que já nos adverte: não será uma história leviana. A raiva também tem espaço no disco, escondida no vocal melodioso – à la Joni Mitchell – de “Weight Of That Weeknd” –,momento do disco que já se inicia com um alto e em bom tom “Fuck you, Debbie”. “Footnotes” se escora no sarcasmo ao juntar diferentes momentos de um relacionamento na mesma música, como uma memória que não conhece linearidade ou cronologia. “Festivals” é sutil ao falar de amor, sem apelar para os exageros e reconhecendo, nas minúcias, os momentos chaves e inesquecíveis de um relacionamento. Por fim, a faixa que dá nome ao disco encerra a história quase de uma forma metonímica: trazendo essas conversas indistintas, esses pequenos momentos de cotidiano para o protagonismo vocal da música.

Nesse novo disco, Land Of Talk continua a se mostrar um projeto de sensibilidade ímpar. Os recursos e o imaginário de Elizabeth Powell alcançam novo patamar. Não é um álbum tristinho ou fofo, tem a ver com o real, com aquilo que aparentemente não é extraordinário. Mas, ironicamente por isso, nos atinge de forma avassaladora e profunda.

 (Indistinct Conversations em uma faixa: “Footnotes”)

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ARTISTA: Land Of Talk

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.