Resenhas

Laura Marling – Once I Was an Eagle

Doce e forte, cantora inglesa mostra maturidade em obra coesa, ainda que oscilante em humores e climas, para contar uma boa história

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Ano: 2013
Selo: Virgin
# Faixas: 16
Estilos: Folk, Indie Folk, Pop Folk
Duração: 1h
Nota: 4.5
Produção: Ethan Johns

Se a comparação a uma águia é um indicativo de força, usar um verbo no passado para tal afirmação pode ser um reconhecimento de fraqueza. Once I Was an Eagle (“Uma vez fui uma águia”), o quarto álbum da inglesa Laura Marling vem com este tom introspectivo e dúbio, alçando altos voos em primeira pessoa ao narrar momentos de ingenuidade ao se apaixonar e sair de um relacionamento.

A jornada lírica inicia-se com um longo desabafo que cobre um arco de quatro músicas, todas tão bem entrelaçadas que mal dá para notar quando uma termina e a outra começa. A história é uma só, por mais multifacetada que seja.

Take the Night Off vem crescente, como se fosse revelada aos poucos. Laura, toda feminina, sabe nos seduzir mesmo em um triste desabafo. Ela chega e faz o instrumental crescer para acompanhar sua interpretação e ganha nossa atenção instantaneamente. I Was an Eagle, música que ajuda a batizar o disco, tem também alguns de seus melhores versos e o centro da história contada: “When we were in love, if we were, when we were in love, I was an eagle and you were a dove”.

Não como águia, mas como fênix, ela ressurge do fundo do poço (You Know) com a fúria cicatrizada em Breathe – pesada, intensa e último argumento para a dissertação desse começo de disco. É aí que surge Master Hunter, o single principal do álbum, que aqui encontra seu devido lugar. Se você já gostava da música antes, em seu habitat natural, ela fica melhor ainda.

A faixa marca também o início de um novo ato na narrativa, com seu tema prolongado na seguinte, Little Love Caster. Devil’s Resting Place dá uma energia criativa maior a este lado do álbum, antes de uma faixa instrumental (singelamente batizada como Interlude) dar o tom do fim da primeira metade. Quando Undine começa, em um violão que ganha pique ao longo de seus primeiros minutos, Laura vem mais caipira, em um Folk mais roots.

Esse tom de trova fica mais claro daí pra frente, em faixas como a leve Where Can I Go e a balada Pray for Me, passando pela lindíssima Once – uma daquelas músicas que você parece já ter ouvido diversas vezes ao longo da vida, mas cuja melancolia te prende de uma maneira que poucas conseguem.

Um trabalho longo (são 16 faixas em uma hora de duração) com músicas muito coesas pode soar repetitivo e ser cansativo para quem não estiver muito no clima, sendo esse o único aspecto negativo da obra. Após as belas Love Be Brave e Little Bird, a apoteótica Saved These Words começa cansada e ganha cada vez mais força até um fim que se une perfeitamente à primeira faixa, o que torna o replay ainda mais convidativo para quem se deixar conquistar pela cantora.

Forte e madura, Laura Marling mostra que sabe oscilar humores e dissertar sobre sentimentos sem medo de ser romântica, em versos marcantes (como “I can’t seem to say I’d like you to stay” ou mesmo “Every little girl is so naive”) e com um primor muito grande na instrumentação. Apaixonante e sublime, Once I Was an Eagle precisa ser degustado com tempo – e deve durar na sua vida a partir de agora e sem data de vencimento.

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.