Resenhas

Laurie Anderson – Bright Red

Com “Bright Red”, Anderson dá entrada nos anos 1990 prevendo a atmosfera sombria da década com um disco que vê na tecnologia um agente transformador das nossas relações e dos nossos medos

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Ano: 1994
Selo: Warner Bros.
# Faixas: 14
Estilos: Avant-Garde, Art Pop, Experimental
Duração: 52’
Nota: 4
Produção: Laurie Anderson, Brian Eno

Se Strange Angels (1989) permitiu que Laurie Anderson fechasse a década com um movimento mais Pop, sua entrada nos anos 1990 mostrou – mais uma vez – que esta é uma artista que jamais permitirá ser rotulada. Assim, participou de filmes de arte, fez parte do júri do Festival de Berlim, curiosamente dublou algumas passagens de Rugrats, O Filme (1998), lançou registros dedicados somente à Spoken Word e, por fim, uniu-se a Brian Eno para dar vida ao disco Bright Red (1994).

O primeiro single do trabalho, “The Puppet Motel”, foi lançado dentro de um CD-Rom com o mesmo nome. Tratava-se do que eles chamavam ali de uma “performance interativa”, ou seja, uma espécie de Game Art em que somos guiados por uma marionete da artista norte-americana. Hoje, o experimento soa um tanto quanto rudimentar, mas não deixa de ser uma investida multimídia de uma criativa interessada em diferentes possibilidades de produção e percepção de suas obras. Seguindo essa verve, Bright Red apresenta Anderson ainda envolta por sonoridades mais Pop, no entanto, suas invencionices apontam cada vez mais para um futuro século XXI.

O encontro entre ela e Brian Eno é importante: sem isso, os ecos de Ambient Music que estão ali, não apareceriam. O canto falado também chega muito mais marcado e maduro. Não à toa, o trabalho seguinte da musicista e performer é 100% dedicado à Spoken Word, o “ao vivo” The Ugly One with the Jewels (1995). Bright Red, por sua vez, é dividido em duas partes. A primeira é homônima e a segunda chama-se “Tightrope”. Dois atos de um disco soturno que conta com um laboratório vocal de Anderson perambulando sobre bases que o dão suporte. Elas estão lá quase que para emoldurar o trabalho das cordas vocais da cantora. Em “Love Among the Sailors”, por exemplo, a delicadeza é tanta que a impressão final se aproxima de um Acappella. O momento mais acessível (“para cantar junto”) do LP fica por conta de “In Our Sleep”, cantada em dueto com Lou Reed, seu namorado na época. Eles viveram juntos até o vocalista do The Velvet Underground falecer, em 2013.

As canções de Bright Red têm letras quebradas: são imagens que parecem pequenas polaróides que se revelam e somem. As tensões metafísicas estão presentes, habitam um mundo caótico, em catástrofe, com cidades submersas, mares poluídos, vírus contagiosos e a sombra da morte eternamente à espreita. Do universo do disco, pinçam-se temáticas que atravessam preceitos bíblicos, a literatura da autora norte-americana Annie Dillard, o cinema europeu, a Guerra do Golfo entre outros assuntos fervidos. Essa mistura pessimista, de certa forma, faz as vezes, inclusive, de captar o zeigeist do início da década de 1990 – a angustiante sensação de estar preso em um velório. A já citada “Love Among the Sailors” fala sobre um amigo próximo de Anderson que vivia com AIDS. O amor entre os marinheiros, pano de fundo da canção, foi emprestado do filme Querelle (1982), do diretor alemão Rainer Werner Fassbinder, e da peça Querelle de Brest (1947) do dramaturgo francês Jean Genet – duas obras fundamentais para a cultura queer.

Esse trabalho é a confirmação de que a artista tinha plena consciência da potência transformadora da tecnologia: de como ela chacoalharia nossas relações e nossos medos. Se há uma atmosfera sombria no disco, não é apenas por como organizava-se o status quo da época, mas também pelo que ele previa, pelo que ele, já naquele momento, adiantou do que estamos vivendo hoje. Bright Red é uma viagem noturna ao lado da mente perturbadora de Laurie Anderson que nos obriga a mantermo-nos em estado de alerta. Não dá para dar o play e ir lavar a louça atrasada. É para quem quer sentar ao lado das caixas de som e ali permanecer. Permitir-se ficar atônito.

(Bright Red em uma faixa: “Same Time Tomorrow”)

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