Resenhas

Laurie Anderson – Landfall

Com a ajuda do Kronos Quartet, Anderson narra em 30 faixas a chegada do Furacão Sandy que destruiu o estúdio em que a artista reunía suas pesquisas e trabalhos anteriores

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Ano: 2018
Selo: Nonesuch
# Faixas: 30
Estilos: Art Pop, Experimental
Duração: 69’
Nota: 3.5
Produção: Laurie Anderson, Kronos Quartet, Scott Fraser

No meio de todo o espectro obscuro que paira sobre Landfall, uma frase em particular chama a atenção. “Você não odeia quando as pessoas te contam seus sonhos?”, pergunta Laurie Anderson, na faixa “Dreams”, fazendo uso de uma espécie de ironia que não é muito comum em seu trabalho. A sentença faz lembrar outra obra da artista, mais especificamente a primeira cena de Heart of a Dog, o filme de 2015 sobre a morte de sua cadelinha Lolabelle. Nela, a norte-americana aparece em uma versão de rotoscopia e diz: “Esse é o corpo dos meus sonhos, com o qual eu ando por aí… Nos meus sonhos”. 

Não será difícil, portanto, reconhecer que Anderson constrói justamente sonhos no seu trabalho: reunindo traumas, memórias de infância e outras situações absurdas, todas dentro de um mesmo contexto onírico, a fim de revelar algo de subconsciente. Por que estaria Anderson, então, dizendo que sente raiva quando alguém resolve compartilhar seus sonhos? Esse é um sintoma de que tipo de ressentimento? Seria, portanto, Landfall, uma retrospectiva crítica de toda sua trajetória artística até aqui?

A resposta é positiva, mas esse modo de olhar para si mesmo não acontece de maneira arbitrária ou sem um motivo maior. Em 2012, o Furacão Sandy se abateu sobre a Jamaica, Cuba, Bahamas, Haiti, República Dominicana, e alguns estados da costa leste dos Estados Unidos, entre eles Nova Iorque. Assim, acabou arruinando parte do estúdio onde estava guardado todo o material elaborado e recolhido por Anderson ao longo dos anos.

Para compor Landfall, ela trabalhou em conjunto com o Kronos Quartet, um quarteto de cordas norte-americano fundado pelo violinista David Harrington, especializado em interpretação de música contemporânea. O grupo, que já trabalhou com Steve Reich, Philip Glass, entre outros figurões, encaixa como uma luva no estilo musical de Anderson que propõe, à sua própria maneira, algo transcendental. Em Landfall, as cordas parecem vibrar na mesma frequência do tecido do tempo, superando as tentativas de um entendimento banal do cotidiano.

Desde a faixa de abertura até o encerramento do álbum, a sonoridade traduz-se em uma espécie de nuvem ameaçadora, capaz de escurecer a atmosfera. O uso de instrumentos como violino e violoncelo, tocados com o arco, sugerem uma relação íntima com o elemento do ar, enquanto o uso dos mesmos em técnicas estendidas ‒ com as cordas sendo dedilhadas ou arranhadas ‒ parecem mimetizar as primeiras gotas de água de um tempestade que se anuncia.

Os títulos das faixas ‒ “CNN Predicts a Monster Storm”, “The Water Rises”, “The Electricity Goes Out and We Move to a Hotel” ‒ sugerem uma narrativa linear, que começa com uma precipitação anunciada pelo noticiário e que logo se transforma em uma realidade de escuridão e ruas alagadas. No entanto, Anderson não se demora em fazer associações menos prováveis, como na faixa “Our Street Is a Black River”, na qual a artista olha para os detritos da destruição e enxergando neles o caos de galáxias desconhecidas. Landfall conta da chegada de um furacão, mas usa a dimensão da catástrofe para transformar a força monumental da natureza ‒ e a pequenez humana diante dela ‒ em música.

Uma vida, cinco décadas dedicadas à criação de um ofício, não passa de um detalhe diante da vontade destruidora da natureza. No entanto, Laurie Anderson, em seu álbum, transcende esse luto, pois sempre meditou sobre a morte como uma forma de fazer arte. Compor para a artista parece ter a ver com encontrar redenção, alívio através de uma espécie de meditação. Nesse sentido, Landfall, feito em 2018, é um marco na carreira de uma artista que sempre trabalhou sobre a perda e, de repente, se vê ironicamente diante da perda de seu trabalho.

(Landfall em uma música: “We Learn to Speak Yet Another Language”)

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MARCADORES: Art Pop, Experimental

Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.