Resenhas

Laurie Anderson – Mister Heartbreak

Para ouvir este disco é preciso estar preparado para deparar-se com a incontornável decepção de tentar entendê-lo. MH é indecifrável, inclassificável e, por isso mesmo, genial

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Ano: 1984
Selo: Warner Bros.
# Faixas: 7
Estilos: Avant-garde, Art Pop, Eletrônico
Duração: 40’
Nota: 4.5
Produção: Laurie Anderson, Roma Baran, Peter Gabriel, Bill Laswell

Quem bate o olho na tracklist de Mister Heartbreak e em suas sete faixas pode ter a impressão errada de que o disco inteiro trata-se da história de um personagem, um tal de “Sharkey”. Isso porque a primeira e a última música são dedicadas a ele e, em seus títulos, essa proposta poderia ser validada: “Sharkey’s Day” e “Sharkey’s Night”. Ele é o tal “Mister Heartbreak” que dá nome ao álbum, mas sobre ele, só mesmo essas duas canções. Eis aí a primeira “decepção” do segundo disco de estúdio da genial norte-americana Laurie Anderson.

Daí por diante, ela não nos cansa de decepcionar. Se seu primeiro disco Big Science é um ataque a tudo que estrutura a sociedade capitalista ocidental, Mister Heartbreak é o primeiro passo depois do apocalipse. Uma tentativa de reinvenção que respeita tão somente “o que há de mais humano na humanidade”. BS revela, detalhadamente, como as estruturas de organização social não passam de farsas bem construídas (desde a comunicação até o que pensamos ser o amor, passando, é claro, pelo mercado e pela ciência, pela razão). Por isso, o LP de 1984 dedica-se à uma compreensão das nossas vicissitudes, volatilidades. Fala-se da água interior, do incompreendido, do incompreensível. Não à toa, o título. Mister Heartbreak é uma busca quebrada, falha, pela perscrutação da alma. É daí que vem a confusão desse disco. O adjetivo, muitas vezes, é usado para desclassificar um álbum, mas aqui, tendo em vista a proposta de Anderson, a confusão é mais do que bem-vinda. Ela é na verdade, a única saída possível.

Reconstrói-se a ideia do amor em “Langue D’Amour”, por exemplo. A letra da música reconta a história do Jardim do Éden, mas a perspectiva agora é a da Eva que nos revela as razões pelas quais se apaixonou pela cobra. A faixa seguinte, “Gravity’s Angel”, era, curiosamente, para ser uma versão em música do livro (gigante) O arco-íris da gravidade (1973) do também norte-americano Thomas Pynchon. Assim como o grande romance estadunidense, a música é dividida em quatro partes. Todas elas, permeadas por um refrão que parece reforçar a ideia dessa reconstrução da sociedade levando em consideração o respeito ao inexorável: “Observe subir / Veja cair”. A gravidade é invencível, nos resta, para sempre, considerá-la.

Depois “Kokoku” mergulha em referências japonesas. Elas estão na instrumentação e na letra. Aqui, o que é acontece é um reconhecimento da individualidade e das dificuldades que essa noção apresenta para um mundo em que a igualdade possa, de fato, se estabelecer. Há certa agonia no poema em japonês. Os elementos citados são uma montanha, um choro, olhos fechados, o nublado. A ambientação sonora é igualmente espaçada, “acinzentada”. Isso, inclusive, destoa do restante do disco. Mister Heartbreak, diferente do debut da artista, é mais rico em sonoridades. Suas músicas têm mais pluralidade instrumental, mais artifícios de produção trabalhando a seu favor. Se antes a música eletrônica e o minimalismo vinham quase que como uma cama para as palavras incisivas de Anderson, em MH os sons transcendem esses dois gêneros, se complexificam e passam a fazer parte ativa da construção de sentido do disco.

Para fechar, a “Sharkey’s Night” que encerra o disco é narrada por ninguém menos do que o próprio beatnik William S. Burroughs. O tom infantilizado com o qual o personagem é tratado na faixa que abre o LP continua aqui. Quase como se tivéssemos dado toda essa volta para não sair do lugar, chegar a lugar nenhum. A perspectiva é pessimista: sai-se na premissa de reconstruir o mundo e, nessa tentativa, esforçar-se e cair na mesma estaca zero. Novamente, Anderson associa o desenvolvimento em sociedade a uma abstenção da humanidade. Mister Heartbreak pode até contar um segundo capítulo da história que começamos em Big Science, mas o protagonista é o mesmo. As condições mudaram, mas sua essência permanece: há passos que não podem ser dados, caminhos que não deveriam ser trilhados, invenções que não deveriam acontecer. Mas, aconteceram. E agora?

(Mister Heartbreak em uma música: “Sharkey’s Day”),

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