Resenhas

Laurie Anderson – Strange Angels

O disco mais Pop da multi-artista norte-americana tem a mesma contundência de seus trabalhos mais conceituais e é, por isso, uma boa porta de entrada para o seu conturbado universo

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Ano: 1989
Selo: Warner Bros.
# Faixas: 10
Estilos: Avant-Garde, Art Pop
Duração: 46'
Nota: 4.25
Produção: Laurie Anderson, Roma Baran, Mike Thorne, Arto Lindsay e Ian Ritchie

Em uma de suas elegias, o poeta tcheco Rainer Maria Rilke selava que “todo anjo é terrível”. Talvez, os anjos que movem e impulsionam Laurie Anderson não sejam necessariamente terríveis, mas eles, sem dúvida, estão longe de serem altruístas como os pinta o cristianismo. A figura alada nos relembra, na verdade, nossas limitações, fraquezas. É sobre isso que este trabalho da norte-americana versa, mesmo em seus momentos mais obtusos. Strange Angels (1989) é o LP mais Pop de uma artista que não abre concessões e que, sempre que quis, armou as performances mais intrincadas e os discos mais experimentais de sua geração. No entanto, não se confunda: não é por ser mais palatável que o álbum em questão é menos profundo ou pobre em nuances. 

A faixa-título, só para se ter uma ideia, chega com a seguinte proposição: “Eles dizem que o paraíso é como a televisão / Um pequeno e perfeito mundo que, na verdade, não precisa de você”. Isso posto, vivemos então em um espaço limítrofe, entre céu e inferno, sem necessariamente qualquer possibilidade de “salvação”. E é sobre essa radical percepção que dissertam canções como “The Day The Devil”, “The Dream Before” e “My Eyes” – o metafísico que há nos atos mais simples do nosso dia a dia. Em Strange Angels, Anderson cria personagens como os do filme Asas do desejo (1987), de Wim Wenders, para habitar os cenários que compõe: amigos abrindo uma geladeira (“Strange Angels”); uma mulher que ganha na loteria (“Beautiful Red Dress”); um “João e Maria” dentro de um filme de Fassbinder, em uma Berlim em colapso (“The Dream Before”); o diabo a bater na sua porta (“The Day The Devil”)… Tudo para compor um surrealismo perspicaz que desenham com clareza um olhar sobre a nossa existência, ou ainda, sobre a falta de sentido em estarmos vivos.

Entre as razões para que Strange Angels ser considerado o mais acessível dos discos de Anderson, está a maneira como a artista coloca a sua voz em jogo. Ela fez aulas de canto e tentou buscar uma imposição mais forte em suas notas. Na época do lançamento, houve quem dissesse que a norte-americana estava abandonando as suas raízes experimentais. Contudo, o resultado do disco revela a capacidade da musicista em dominar um formato mais Pop para abordar questões tão complexas quanto qualquer álbum pretensioso avant-garde. 

O mix, inclusive, foi o argumento perfeito para conquistar uma indicação ao Grammy de Melhor Álbum Alternativo de 1991, o primeiro ano dessa categoria. Na ocasião, ela competia com Sinéad O’Connor e Kate Bush, duas artistas Pop com pretensões similares. Com cara bem oitentista (pense em instrumentos de sopro e aquela atmosfera meio World Music querida no final da década), Strange Angels estabelece um novo espaço para Anderson que extrapola o rótulo de “conceitual” ou “performática”. Por ser menos hermético, o LP é uma boa porta de entrada para quem quer se aventurar pelo mar turbulento de Laurie Anderson. Fantasiado de certa convencionalidade, SA revela, pouco a pouco, surpresas saborosas a seus ouvintes.

(Strange Angels em uma faixa: “Beautiful Red Dress”)

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MARCADORES: Art Pop, Avant-Garde

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