Resenhas

LCD Soundsystem – LCD Soundsystem

Pontapé inicial arrebatador, disco de estreia, de uma só vez, capta espírito e rejeita as tendências da época em que foi lançado

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Ano: 2005
Selo: DFA
# Faixas: 16
Estilos: Dance Punk, Indie Pop
Duração: 100'
Produção: The DFA

Em 2005, consumir música era um negócio completamente diferente de hoje: o acesso à música digital se dava pelos compartilhadores de arquivos como Kazaa, Ares e Napster; a comprovação do sucesso de determinado artista podia facilmente ser evidenciada pela exposição que tinha nos canais de TV, dentre os quais a MTV figurava como pedestal dourado; e a produção musical era algo ainda pouco acessível – muito diferente do cenário atual, no qual qualquer computador com um software de áudio tem o potencial para produzir um disco ganhador de Grammy. Muita coisa mudou, mas um aspecto permanece firme há quase 15 anos: a música carrega certo poder de ditar quem é descolado ou não. Hoje, temos diferentes nichos ditando normas sociais, mas, em 2005, a coisa parecia partir de cima para baixo.

Eram os veículos midiáticos que construíam as tendências e demonizavam aqueles um pouco mais diferentes. Era o top 10 da MTV que criava um manual pseudo-oficial do que “deveria” ser ou não consumido, do que era cool. Mas, ao mesmo tempo, foi em 2005 que o mundo veio a conhecer uma banda que mudaria essa “ordem natural” do cool. Foi naquele ano que o LCD Soundsystem inverteu a cadeia alimentar Pop, juntando uma cacetada de elementos de sonoridades diferentes em uma síntese verdadeiramente única.

O grande charme do LCD Soundsystem sempre foi conservar um certo mistério por trás de sua obra. Lá estava um grupo de jovens nova iorquinos, consumindo vinis velhos e experimentando técnicas amadoras e sujas de gravação, enquanto o resto do mundo colocava “We Belong Together”, de Mariah Carrey, no topo das paradas de sucesso. Parecia que o grupo era imune às urgências estéticas propostas pelos hits de sucesso e, justamente por exalarem uma aura de indiferença quanto a isso, ganhavam um status de ainda mais descolado. A banda surge em uma época em que custava caro bancar a própria autenticidade, mas justamente por ter uma avalanche radiofônica na cara a todo instante, foi possível enxergar um modelo perfeito da onde não queriam chegar. Apesar disso, todo esse espírito proto-hipster levou a banda a cunhar uma sonoridade que, apesar de rejeitar muitas dessas estéticas, tornou-se inegável e irresistivelmente Pop. Como se tivessem se afastado tanto, que, no final das contas, deram a volta ao mundo e caíram no mesmo lugar. Só que não era o mesmo lugar. Não mesmo.

2005 é o ano da estreia do LCD Soundsystem em seu disco autointitulado, um trabalho que já mostra que é diferente muito antes de ser reproduzido. O primeiro contato que temos com a banda é um álbum duplo, composto de 16 faixas e com pouco mais de uma hora de reprodução. Isso ia completamente na direção contrária do disco formatado para as paradas de sucesso – a maior representante desta audácia é a caótica faixa “On Repeat”, com 8 minutos de duração. A capa evidenciando o globo de luz ao invés da cara dos integrantes também nos comunica que o que interessa aqui não são feições ou figurinos, mas simplesmente o aspecto dançante do disco – um de seus maiores atrativos.

Aqui está uma boa parte dos hits que até hoje são considerados os maiores sucessos da banda, como “Movement” e “Daft Punk is Playing In My House”. Neles, ouvimos uma identidade sólida que, apesar de se apoiar no DIY, mantém coesão e sofisticação do início ao fim. O termo Dance-Punk talvez seja um dos mais precisos para definir esse mundo de contradições e ironias, afinal o próprio nome do gênero já pressupõe algo improvável. É neste gênero, presente em todo o registro, que também percebemos como o LCD Soundsystem expressa o o zeitgeist: uma época em que ainda tentávamos lidar com o crescente – e, àquela altura, nebuloso – acesso à (tanta) informação. O som do disco reflete como a banda tentava dar conta de tudo, justamente porque se inspirava em fontes diversas, desenfreadamente.

Outra característica marcante do registro é a influência da música eletrônica, mas não da modalidade vigente na época, com seus representantes Benny Benassi e Magic Box. A constante exploração de vinis antigos leva James Murphy e sua trupe diretamente ao tempo do House/Disco e, apesar desta estreia não abarcar necessariamente os timbres típicos daqueles gêneros, a repetição constante de riffs e batidas tornou-se uma das armas principais do LCD Soundsystem. Aqui, um mesmo riff pode se prolongar pela música inteira sem causar nenhuma fadiga ou tédio. Talvez por essa aparente simplicidade o termo Punk se encaixe tão perfeitamente na definição. Nestes contrastes é que fica ainda mais evidente o quanto a proposta da banda não era agradar ou se encaixar em estéticas pré-concebidas, ao mesmo tempo em que não era dada a experimentações mirabolantes e pedantes. É um som de escape, despretensioso e que não encara o disco como produto, mas como válvula de escape para os problemas do cotidiano. É aquele momento em que você só precisa pensar na festa em que você está, nada mais importa.

LCD Soundsystem é quase como a adolescência da banda. Ela constrói uma identidade a partir dos modelos que se deseja evitar e, por ventura, acaba se tornando extremamente popular. É a autenticidade e a vontade de seguir as próprias diretrizes que chamam a atenção de grandes veículos, causando o pontapé inicial da fama da banda e lhe rendendo indicações ao Grammy. É um disco anti-Pop descolado, mas tão descolado, que ele acaba se tornando algo como uma bíblia do gênero Pop a partir dos anos 2000, acidentalmente. Não tem como ser mais descolado que isso.

(LCD Soundsystem em uma faixa: “Daft Punk is Playing At My House”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.