Leon Bridges – Good Thing

Segundo disco amplia leque de influências e mostra artista em evolução

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Ano: 2018
Selo: Columbia
# Faixas: 10
Estilos: Soul, Funk
Duração: 34:56
Nota: 4.0
Produção: Niles City Sound, Ricky Reed, King Garbage, Nate Mercereau

Há três anos, resenhei a estreia de Leon Bridges, o simpático Coming Home. O jovem cantor e compositor texano optava por uma via revisionista dos primeiros tempos da Soul Music, lá no início dos anos 1960, dividindo opiniões da crítica mundial. Como se tratava de um trabalho assumidamente revisionista, relevei a opção de Leon, deixando claro que ele deveria oferecer algo mais do que a mera xerocópia – por mais bem feita que fosse – de mestres da música afro-americana do passado. E apostava em seu próximo disco. Pois bem, aqui está o resultado desse tempo de maturação, que fez muito bem a Bridges. Good Thing não o livra da fama de artista voltado para tempos idos, mas mostra uma evidente evolução em termos de espectro musical, mostrando que a ampulheta sonora comporta outras décadas de revisitas. E, além disso, uma característica se repete no novo feixe de dez canções: o bom gosto.

Good Thing mostra que Leon Bridges tem noção de continuidade em termos de inspiração artística. Ele deixa a década de 1960 para trás e adentra com pé firme os anos 1970 e se esbalda em uns 20 anos de ideias e bons fluidos. Pipocam alusões a vários bons exemplos de artistas black consolidados no imaginário coletivo mundial e Leon percorre por essas alamedas com cabeça erguida, sabendo que é capaz de acrescentar algo personalíssimo a tanta informação. Sua voz é firme e versátil, seu bom gosto é notável e sua objetividade, traduzida em bons e eficientes arranjos e tempos de duração que, no máximo, orbitam os quatro minutos, não enchendo o saco do ouvinte com vinhetas desnecessárias e outras megalomanias desnecessárias. Ao contrário de seus contemporâneos, Bridges não usa e abusa dos maneirismos – como Bruno Mars – ou se volta para influências do Hip Hop – como Anderson. Paak, permanecendo fiel a uma musicalidade mais elaborada e orgânica. A Eletrônica está ausente do espectro do disco.

Das surpresas mais legais que estão presentes nas canções de Good Thing esta um flerte firme com um amálgama de Disco, Funk e Jazz, estilos que caminharam bem próximos em alguns momentos nas décadas de 1970/80, influenciando gente que ia de Michael Jackson e George Benson, sem falar no quanto esta mistubera divina serviu como inspiração para vários artistas dos rincões mais melódicos do R&B noventista e do novo milênio. Tudo cai como uma luva – prateada? – nos arranjos de belezuras como You Don’t Know, com um potencial dançante inegável e toques psicodélicos no instrumental, tanto nos efeitos de eco quanto nas guitarras invocadas à la Isley Brothers, que surgem por aqui e por lá, ainda dando espaço para solos e vôos instrumentais bacanas. Outra que bebe nesta fonte é Bad Bad News, totalmente pertencente a um imaginário Funk que nos protege de todo o mal.

Bridges também mostra que tem autoridade para cantar as baladas mais elaboradas. Uma delas, Bet Ain’t Worth The Hand, abre o álbum com um arranjo de cordas celestial e belíssimo, servindo como uma câmara de descompressão entre o trabalho anterior e este, mostrando que estamos diante de uma dobra temporal-sonora, que nos convida pra viagem. Além dela, Shy, com jeitão de música que a gente dedica para a pessoa amada – ainda tem isso? – chega soberana e inicia o que os negões estadunidenses chamam de “slow jam”, aquela canção mela-cueca – ainda se usa isso? – para ouvir juntinho. Alguns podem achar que é retrô, mas, como já dizia o DJ Albert Einstein, o tempo é relativo, gente.

Leon Bridges segue um revisionista. Um dos bons. Seu talento para compor e gravar mostra que o rapaz sabe o que está fazendo e este álbum mostra, nitidamente, um artista em evolução. Seguimos de olho em você, Leon.

(Good Thing em uma música: You Don’t Know)

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BOM PARA QUEM OUVE: Anderson .Paak, Bruno Mars, Usher
ARTISTA: Leon Bridges
MARCADORES: Funk, Ouça, Soul

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.