Resenhas

L’HOMME STATUE – SER

Disco de estreia de Loïc Koutana traz múltiplas perspectivas dentro de um mesmo corpo, passando por diferentes gêneros musicais em experimentação intensa

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Ano: 2021
Selo: Urban Jungle Records
# Faixas: 10
Estilos: R&B, House, Experimental
Duração: 36'
Produção: Zopelar

Há um filósofo francês chamado Michel Henry que levanta uma discussão sobre a relação entre o corpo e a subjetividade. Ele nos faz reconsiderar a ideia de que o corpo é um meio pelo qual são percebidas e vivenciadas as diferentes experiências durante nossa vida. Para ele, o corpo não é um instrumento ou veículo de sensações: ele é a própria subjetividade. Pode parecer apenas um detalhe semântico, mas através desta ideia é possível repensar algumas das ideias mais comuns sobre o corpo dentro da arte. Muitas vezes, colocamos a nossa experiência como algo abstrato que é representado pelo corpo – seja por meio da dança, da música ou da performance. Sob a luz do pensamento de Michel Henry, a experiência se torna menos fantasiosa e mais palpável – nosso corpo é quase como um campo repleto de marcas que são, por si só, o próprio relato de uma vida. Com a performance corporal cada vez mais integrada dentro dos circuitos de música eletrônica, repensar a relação entre corpo e arte a partir deste conceito traz uma gama de possiblidades artísticas para o jogo. Possibilidades estas que parecem ser fundamentais para o artista Loïc Koutana e a construção de sua identidade enquanto L’HOMME STATUE – o homem estátua.

O nome do projeto de Loïc coloca o corpo como elemento fundamental de sua expressão artística. Desde que integrava o coletivo Teto Preto, sua performance sempre foi seu instrumento mais poderoso e que, combinado com o estilo ácido e mutante das músicas do produtor Pedro Zopelar, ganhava um impulso ainda maior dentro de sua proposta. Após sua saída do grupo, Loïc passou a compreender que sua arte poderia transbordar para além da performance corporal e, assim, os primeiros singles começaram a surgir. Dotado de um estilo que pouco se preocupava em se encaixar em gêneros consagrados da música eletrônica, o artista aos poucos moldou a estética do homem estátua. Novamente acompanhado por Zopelar, seu projeto abraçou o experimentalismo como única linguagem possível para dar conta de sua trajetória. Em entrevista a Elle, Loïc afirma que sua música vem como um processo de se descobrir enquanto artista e de driblar o medo da exposição e de nunca ser o suficiente. Seu experimentalismo é uma junção de diferentes reflexões sobre sua vida e agora, após single marcantes como Braços Vela (2019), é chegado o momento de marcar esta trajetória da mesma forma que Michel Henry entende as marcas como parte das vivências dispostas sobre nosso corpo.

SER é fruto de um processo intenso e de vivências múltiplas. A partir de uma fusão de referências que vão do R&B ao Funk Carioca, passando por House, Trap e ocasionalmente entrecortado por áudios de WhatsApp de amigos e familiares, Loïc traz as suas múltiplas perspectivas para a mesa. É um disco sobre a vivência do negro, mas que também é filho de imigrantes. É também um discurso sobre a liberdade artística e o processo de auto aceitação, mas também sobre mágoas e amores livres. Em seu disco de estreia (apesar do termo estreia não fazer jus à figura consagrada de Loïc), há uma vontade de expor suas marcas. Não como forma de delimitar um conceito fechado, mas de trazer à tona tudo que ele é. Cada faixa possui vida própria, sendo completamente inútil a tentativa de categorizar essa estética a partir de gêneros musicais. É como se cada momento do disco trouxesse a multiplicidade de forma total e por isso ele é totalmente imprevisível. Loïc é intenso em sua proposta, e não poderia ser diferente. Na mesma entrevista à Elle, ele comenta sobre a experiência de autoconhecimento durante a pandemia e, neste sentido, é compreensível que o disco tenha o nome que tenha. Afinal, é um trabalho sobre existir de inúmeras formas, sob diferentes olhares e experiências – todas marcadas no corpo de Loïc.

Introduzido por um áudio da mãe de Loïc, “O Canto de Sereias” traz um arranjo que flerta com o Jazz e o Hip Hop como forma de introduzir a intensidade com com a qual ele vive (“Cheguei para abrir caminhos”). “Jalousie” chega com um o grave arrebentando todas as caixas de som, em um Trap sinistro e permeado pelo flow francês de Loïc, mas também por samples triturados entre os espaços que a percussão permite. O single “Do Not Tell Me” evoca um sentimento mais suave dentro das referências House, sem sacrificar aquele pico de estranheza nas sonoplastias e os ocasionais samples de Funk batidão. “Liberté” é um grito que implode a catarse e a libertação do artista (“Você não tem mais poder em cima de mim”). Com cortes e edições de áudio, “Obrigado” encerra o disco em tom de agradecimento e redenção.

Depois de ouvir SER, precisamos de um momento para respirar. É inegavelmente um repertório de sensações intensas, tal qual trajetória de Loïc. A metáfora de se nomear como um homem estátua ganha ainda mais sentido quando analisada sob a ótica de SER. Afinal, uma estátua pode estar parada aos olhos do espectador, mas ela traz consigo as marcas de uma história viva e expressa um constante movimento. Assim, retomando aquele conceito inicial de Michel Henry, o disco de estreia de Loïc é seu próprio corpo – subjetividade e experiência vivas.

(SER em uma faixa: “Liberté”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.