Resenhas

Lício – Lício

Disco reflete e se surpreende sobre o cotidiano do músico fluminense

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Ano: 2017
Selo: Independente
# Faixas: 9
Estilos: MPB, Singer-songwriter, Folk
Duração: 27:18
Nota: 3.5
Produção: Lício

O exercício da composição é também de reflexão, e Lício sabe disso mais do ninguém. Com lançamentos tímidos, porém extremamente tocantes, o músico mostrou que seu violão era mais do que um amigo, revelando ser parte integrante de sua vida, quase como um órgão de seu corpo. Agora, com o lançamento de seu primeiro disco, isto parece ficar mais claro e a relação quase simbiótica com o instrumento de cordas se revela tão plena quanto complexa. O trabalho autointitulado se comporta como um álbum de registros bem guardados, o que deixa bem claro a razão de ser “gravado no armário embutido do quarto de empregada”, como dito em seu Soundcloud.

Com faixas arranjadas para voz e violão, estes elementos se mostram mais do que suficientes para que Lício encare e reflita sobre o próprio cotidiano, nos entregando, assim, uma crônica sincera. O dia-a-dia de Lício está permeando os intervalos dos acordes de violão e a voz falha do músico e, por cima disso, uma letra que encontra no mundano a poesia pura. À Árvore, por exemplo, entoa com um grave confortante a descrição de uma casa, ao mesmo tempo que tece comentários sobre uma relação.

O Espelho Vazio, por sua vez, dedilha nota tensas e melancólicas com uma melodia de voz rouca que traduz certo pesar e dureza, revelando a parte sofrível de cada cotidiano. A tristeza também continua em Neptunia a Vila Verde, que usa da sonoplastia de cachorros latindo e carteiros anunciando a chegada para compor a paisagem introspectiva. O disco conta com duas participações da cantora Daíra: Menina Fará e O Galo Inácio, ambas ótimos exemplos de como Lício é um ótimo anfitrião e faz sua convidada se sentir à vontade em meio a composições suas, mas que parecem ter igual validade e peso para a cantora.

O trabalho de Lício é impecável porque faz com que ele se proponha a explorar ainda mais um terreno que já conhece, revelando rachaduras, imperfeições e novos padrões. Estas novidades encantam o músico e é aí que jaz a matéria prima de Lício: a novidade do cotidiano e as incríveis surpresas que ele pode nos render. Um trabalho de mil sinceridades.

(Lício em uma faixa: À Árvore)

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BOM PARA QUEM OUVE: Dorival Caymmi, Marcelo Camelo, Wado
ARTISTA: Lício
MARCADORES: Folk, MPB, Singer-Songwriter

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.