Resenhas

Lido Pimienta – La Belleza

Em quarto álbum de estúdio, a artista colombiana insere estéticas latino-americanas em uma ambientação escorada nada música erudita instrumental

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Ano: 2025
Selo: Anti
# Faixas: 9
Estilos: Folk, Clássica, Erudita
Duração: 28'
Produção: Lido Pimienta e Owen Pallett

Fazer sua herança cultural caber em estéticas vindas do colonizador. Talvez seja isso o que muitos chamam de cosmopolitismo, ou talvez seja só um movimento mais simples, fruto do contato entre culturas, tradições e hegemonias. De qualquer forma, é uma característica intencional na obra de Lido Pimienta. A colombiana, radicada no Canadá, lançou dois álbuns nos quais trabalha elementos estéticos de sua ancestralidade combinados à música eletrônica, ora mais pop, ora até experimental (La Papessa, de 2016, e Miss Colombia, de 2020). Do lado de cá de uma pandemia, ela resgata a mesma ideia, mas em diálogo com outro universo.

La Belleza se propõe a desenvolver essas mesmas estéticas latino-americanas – em tom, timbre e ritmo – inseridas em uma ambientação referencialmente europeia: a da música erudita orquestral. Gravado com a Orquestra Filarmônica de Medellin, o disco preserva as características mais orgânicas da obra da artista sem a linguagem eletrônica e sintética que moldou seus lançamentos anteriores. Para muito além de sua voz e dos elementos culturais de sempre, conseguimos reconhecer Lido ali principalmente pela maneira emocional como ela trabalha a música.

As próprias letras de La Belleza apresentam frases simples e significados abertos – não estão ali para serem lidas com um olhar muito narrativo, ou mesmo lógico. A maneira como ela canta sobre o suco da manga que escorre à mordida (em “Mango”), com grande carga dramática e acompanhada por uma harpa, leva ao questionamento do que a fruta significa. É um processo bem diferente do de músicas como “Nada” ou “Eso que Tu Haces” (ambas de Miss Colombia), com discursos mais diretos em suas poéticas.

Vale ressaltar esse aspecto porque a indagação faz grande parte da experiência de escutar o disco. Ela passa pelas letras, mas principalmente pela grande escolha que rege toda a feitura da obra. Por que explorar um universo tão diferente de seus trabalhos anteriores? O que a grandeza dessa musicalidade – e ela cita liturgias católicas, principalmente missas de réquiem, como inspiração – comunica quando combinada aos cantos folclóricos e chocalhos? E para onde foram as tantas cores que sempre marcaram seu trabalho?

Sem respostas prontas, Lido Pimienta também oferece o questionamento sobre qual é “a beleza” que sua arte pode encontrar. Acompanhada de orquestra, ela ocupa um espaço simbólico onde faz caber a tradição que herdou, além de mostrar ao colonizador que sabe dialogar direitinho com as linguagens trazidas (às vezes impostas). Isso é Caribe, isso é Colômbia, isso é América Latina. E é bonito.

(La Belleza em uma faixa: “Quiero que Me Beses”)

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ARTISTA: Lido Pimienta

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.