Resenhas

Lightning Bug – A Color of the Sky

Banda americana enxuga os excessos dos primeiros discos e proporciona experiência focada na emoção pura e intensa

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Ano: 2021
Selo: Fat Possum Records
# Faixas: 10
Estilos: Indie, Alternativo
Duração: 38'
Produção: Lightning Bug

Lightning Bug é uma daquelas bandas que não sobreviveria em espaços pequenos. Como muitos artistas que transitam entre o Dream Pop e Shoegaze, a sensação de estar em um lugar enorme, com uma atmosfera arejada, é parte fundamental da construção de sua sonoridade. Não apenas na ambientação, mas também na forma como as guitarras ecoadas e reverberadas ficam dispostas, dando a sensação de um mergulho profundo dentro de um vórtice infinito. De qualquer forma, este foi o universo explorado pelo grupo estadunidense durante seus dois primeiros registros.

Floaters (2015) trazia um aspecto notadamente Indie, principalmente em seus acordes estridentes de violão, mas também na estética Lo-Fi que se aproximava de artistas como Neutral Milk Hotel e Beach House. Já em October’s Song (2019), as referências pareciam mais direcionadas para um lado experimental, trazendo o Shoegaze de forma mais evidente, abusando de reverbs mais intensos e envolventes. De uma forma ou outra, a missão do grupo sempre foi dar ao ouvinte a sensação de estar ouvindo algo maior que um disco. De criar cenários costurados de uma maneira imprecisa e borrada, a fim de se perder por entre as diferentes faixas dos registros. Entretanto, este mergulho cada vez mais profundo parece ter sido deixado de lado na nova empreitada do grupo.

A história de A Color of the Sky começa em 2018, quando a vocalista do grupo, Audre Kang, visitou o Festival Internacional de Pipas do estado de Washington. Naquele momento, a banda havia acabado de entregar o segundo disco e seu estado era de puro esgotamento. Um disco que demorou quase cinco anos para ser lançado e sugou boa parte da saúde mental dos membros. Audrey, inclusive, não havia descartado a possibilidade de que a banda poderia ter chegado ao fim. Entretanto, este festival lhe rendeu uma nova chance de encarar este momento da banda, assim que colocou uma pipa no ar. A sensação de produzir algo e colocá-lo em pleno voo o inspirou a prosseguir. E assim este projeto de aerodinâmica se tornou um norteador temático deste novo momento do grupo. Novo, porque ao invés de mergulhar fundo dentro dos excessos abissais, Lightning Bug optou por ascender e voar, tal qual o inseto que dá nome ao grupo.

Neste terceiro disco, os espaços permanecem essenciais no processo de composição, entretanto, há uma impressão de que é tudo mais comedido e controlado. Não nos perdemos mais da mesma forma que nos discos anteriores, sempre temos uma voz clara ou frase de guitarra a nos guiar. Dessa forma, a sonoridade do grupo parece mais enxuta, mas isso não significa, de maneira alguma, que ela perca aquela potência inicial dos primeiros discos. Muito pelo contrário. Refinar os arranjos manifesta uma nova forma de sentir a intensidade, talvez porque agora estamos realmente próximos das letras e vivências expressas por Audrey.

No meio fio do Emo/Shoegaze, “The Return” cria uma textura hipnótica, apenas para nos introduzir a este novo universo – trazendo com força uma referência vocal de Cranberries. “The Right Thing Is Hard To Do” tem toda a emoção de uma balada dos anos 1990, simples nos arranjos e dolorosa em suas letras. “The Chase” retoma a amplidão sonora de discos passados, mas apenas como um prólogo para que “Song Of The Bell” possa reverberar tons psicodélicos – algo entre The Doors e Cocteau Twins. “I Lie Awake” constrói uma parede sonora como forma de retomar referências anteriores, uma espécie de celebração do passado e de sua importância para as novas experiências. Por fim, “The Flash” encerra o disco em tons Folk – nada melhor do que uma canção nos moldes singer-songwriter para finalizar um disco em que as emoções e vivências são matéria-prima de inspiração.

A Color Of The Sky representa um momento novo na carreira da banda, mas certamente não nos parece desconhecido. Apesar de apostar em uma sonoridade menos carregada, as emoções continuam intactas e intensas. Os ecos incessantes, que no passado serviam como uma textura, agora cedem espaço para o sentimento. Não há mais nada para nos confundir e embaçar a vista, apenas a emoção pura.

(A Color Of The Sky em uma faixa: “The Right Thing To Do Is Hard”)

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ARTISTA: Lightning Bug

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.