Resenhas

Lil’ Kim – 9

A rapper se esforça para atualizar o seu som que, durante o disco, encontra soluções ora mais, ora menos eficientes enquanto namora com o Trap

210 total views, 3 views today

Selo: Queen Bee Entertainment/eOne
# Faixas: 9
Estilos: Trap Rap, Pop Rap
Duração: 31'
Produção: Xtassy, Soundwave, Grandz Muzik, Buda, Rondon, Jonny Cash, Jungle Boy Beats, DJ Mil-Ticket, 808 Mafia, AB on the Beat, Will Major

No segundo episódio da terceira temporada de Hip-Hop Evolution, série documental da Netflix sobre a história do gênero musical, o rapper e empresário Sean Combs (anteriormente conhecido como Puff Daddy, P. Diddy ou Diddy) comenta que ficou sem palavras quando Notorious B.I.G tocou “Crush On You”, primeiro single da então novata rapper Lil’ Kim. “Ela era o Biggie de saias”, falou. “Mas de um jeito bem mais atrevido.”

“Crush On You” era uma das faixas de Hard Core, seu álbum de estreia, lançado quando Kim tinha 22 anos, em 1996 – dois anos após ela ser descoberta por Biggie e revelada ao mundo via o grupo Junior M.A.F.I.A. A voz grave e letras sexualmente explícitas de Kim, inesperadas para uma rapper mulher na época, fez com que o disco se tornasse um clássico do Hip Hop da costa leste nos anos 1990.

Mas o que se seguiu da carreira de Kim não teve tanto sucesso. Em seu álbum seguinte, The Notorious K.I.M, a rapper já soava com uma caricatura de si mesma e rimava sobre produção muito mais polida do que antes. La Bella Mafia, de 2003, e The Naked Truth, de 2005, já não receberam tanta atenção da comunidade Hip Hop e se confundiram em meio à escandalização da vida pessoal de Kim e de rixas com rappers como Foxy Brown e Nicki Minaj.

Apesar de ter lançado algumas mixtapes no caminho, foram necessários 14 anos de intervalo para que Lil’ Kim soltasse outro álbum de estúdio. 9, lançado no dia 11 de outubro deste ano, saiu em um momento importante para as mulheres no Rap. Em 2017, Cardi B se tornou a primeira rapper feminina solo a alcançar o topo da Billboard em quase 20 anos com seu single “Bodak Yellow” (a última a realizar o feito havia sido Lauryn Hill com Doo Wop (That Thing)”, em 1998).

No início de 2019, pela primeira vez, a revista XXL teve mais de uma mulher em sua “freshman class”, uma tentativa de definir quem representará a nova escola do Hip Hop. Estampando a capa, ao lado de outros sete rappers homens, estavam as norte-americanas Tierra Whack, Rico Nasty e Megan Thee Stallion – esta última já tendo citado Kim como uma de suas principais influências.

E o talento que causou essa influência ainda está presente em 9. Na faixa que abre o disco, “Pray For Me”, Kim nos lembra de sua voz potente e de sua história de ascensão em um som que parece discorrer sobre sua relação conturbada com Biggie. Em “You Are Not Alone”, que interpola a faixa homônima de Michael Jackson, ela entrega linhas e flows agressivos que pareciam, há muito, já terem saído de seu arcabouço musical. 

Mas a atmosfera sonora está bem diferente de onde Kim a deixou em seu último álbum de estúdio, e esta talvez seja a grande questão em 9. A popularidade de um Hip Hop dominado pelo Trap já fez alguns rappers se desdobrarem para modernizar seu som de alguma maneira – um bom exemplo é Schoolboy Q, que apesar de ser profundamente envolvido com o som da costa oeste dos Estados Unidos lançou neste ano um álbum repleto de batidas e vocais que se inspiram em seus contemporâneos de Atlanta.

Este não chega a ser completamente o caso de Kim, mas faixas como “Bag” e “Catch My Weave” ambas mostram uma Kim um tanto deslocada enquanto busca influências deste universo – a última com um verso completamente necessário do trapper Rich The Kid –, enquanto “Too Bad” poderia ser um cover de alguma música do Future circa 2015, fazendo jus ao termo “mumble Rap”. 

Kim está perdida entre seu passado triunfal e um presente do Hip Hop ao qual ela não pertence mais – não à toa, ela parece demasiadamente apegada ao seus tempos de glória, com o álbum tendo um punhado de referências ao Hard Core. Os melhores momentos de 9 são quando ela consegue fazer uma ponte entre esses dois períodos de sua carreira, como na sexualmente explícita “Found You”, em que Kim sai de sua zona de conforto para rimar sobre um beat com influência do G-funk e que conta com participações ótimas das City Girls e O.T. Genasis. 

As duas faixas que encerram o disco, “Auto Blanco” e “Jet Fuel” (esta última produzida pela equipe renomada de produtores de Trap 808 Mafia) chegam perto, também, de unir a modernidade dos beats ao estilo old school das rimas de Kim. Mas ainda é necessário a uma das rainhas do Hip Hop encontrar um equilíbrio se ela ainda pretende retomar sua coroa.

(9 em uma música: “Found You”)

211 total views, 4 views today

ARTISTA: Lil' Kim
MARCADORES: Pop, Rap, Trap Rap