Liniker e os Caramelows – Remonta

Primeiro disco da banda é uma experiência auto-investigativa dentro de medos e superações

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Ano: 2016
Selo: Vulkania
# Faixas: 13
Estilos: MPB, Black Music, Soul
Duração: 49:00
Nota: 4.0
Produção: Marcio Arantes

A dor é matéria prima e Liniker e os Caramelows sabe disso como ninguém. Uma pérola encontrada em meio ao caos urbano, o projeto encabeçado pelo jovem ganhou repercussão com um despretensioso EP que revelava uma voz forte e guerreira envolta de referências da música Black brasileira com mensagens de empoderamento e quebra de estereótipos. Mais do que isso, Liniker soube, em apenas três canções, transpor integralmente um universo de emoções plenas e sinceras, que nos tocavam pela crueza de seus sentimentos e pela convicção com a qual abraçava todo aquele emaranhado de pensamento. Tamanho foi esse nó de sensações, episódios e dores acumulados na cabeça do compositor que foi necessário um disco para dar suporte a tudo isso e, assim, um exercício de auto-investigação nasceu como um grande alívio a ele.

Se montar já é um tarefa árdua, se Remontar é algo que requer uma grande reflexão sobre si mesmo. É justamente neste momento que Liniker se encontra, tentando processar quase cinco anos de sentimentos e nos mostrando suas dúvidas e impressões do mundo com um olhar jovem, porém extremamente maduro diante das incertezas que o cercam. Entretanto, não é um disco de lamentos no qual a dor coloca-nos mais para baixo, mas uma auto-afirmação de sua humanidade na qual suas vivências são vestidas com orgulho como se estivesse dizendo: “esta é a minha dor, esta é a minha história”. E, a partir disto, Liniker se sente confortável em usar isto como matéria prima para seu processo de remontar, ou seja, passar a limpo tudo, rasgar o silêncio e desfazer o grande nó em sua garganta.

O disco traz ótimas referências, desde um Tim Maia choroso, passando por um complexo Bixiga 70 até chegar a baladas latinas. Tudo isso explorando o universo particular de Liniker de formas plurais e interessante em cada composição. A faixa Remonta nos cala, pois a voz do jovem já brada em alto som claro que não lamentará suas feridas, afinal, elas germinam na pele. Caeu, em sedutor tom, impõe e reconhece sua força em seguir até onde conseguiu. BoxOkê alia a arrebatadora presença de Tássia Reis em uma canção para lavar a alma do passado, com sais e lágrimas. As três canções do EP de estreia ganham novos arranjos e se encaixam perfeitamente, principalmente Louise Du Brésil que, minimalista, imprime a força feminina em alto e bom som. Você Fez Merda é direta e clara – nada desse lance de indiretinha, uma bela prova de dar a volta por cima.

Liniker veste suas feridas e se orgulha de poder tê-las em seu corpo. Em um misto de diário e manifesto, Remonta impressiona pela motivação que traz de uma maneira pouco clichê e extremamente sincera. Um projeto que já tinha grandes ambições ganha um novo status com este lançamento, produzindo um disco importante para seu criador, mas também para nós que encontramos em Liniker uma guerreira de alma nobre e coração cuja bravura nos inspira em nossas respectivas histórias. Uma crônica contemporânea dos medos humanos e das superações definitivas.

(Remonta em uma faixa: Remonta)

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BOM PARA QUEM OUVE: Tim Maia, Bixiga 70, Tiê
MARCADORES: Black Music, MPB, Ouça, Soul

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.