Resenhas

Linn da Quebrada – Trava Línguas

Segundo disco é movido pelo talento afiado de Linn ao manusear a linguagem a favor de intensa auto investigação

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Ano: 2021
Selo: Independente
# Faixas: 11
Estilos: R&B, House, Experimental
Duração: 38'
Produção: Linn da Quebrada, BADSISTA e Dominique Vieira

Figura fundamental dentro do cenário musical brasileiro atual, Linn da Quebrada trouxe desde cedo uma marca autêntica em sua sonoridade: a força de um discurso que não se cala perante a adversidade. O estrondoso disco de 2017, Pajubá, é um exemplo categórico de como as referências sonoras do Funk e Industrial impulsionaram rimas e letras afiadas, seja em um combate direto ou recheado de metáforas.

A música é o terreno pelo qual Linn se expressa, mas parece que é através da linguagem e da palavra que ela vive. Seu primeiro disco reforça essa imersão na linguagem justamente por conceder a este registro um título que protagoniza uma língua de resistência, o pajubá. Desde então, a pluralidade de recursos empregadas em sua arte (música, linguagem, performance, audiovisual) tem comprovado cada vez mais que Linn é uma artista completa, encontrando em cada um destes recursos uma particularidade essencial para enriquecer seu discurso. Esta talvez seja a grande sacada de seu trabalho, como ela nos faz querer escutá-la a falar sobre tudo – seja pela escolha dos temas, ou pela forma de seu conteúdo.

Porém, toda esta riqueza traz uma consequência inevitável dentro de um sistema capitalista: a arte acaba servindo aos lucros, e, com Linn isso não parece ter sido uma exceção. Em entrevista para o canal Metrópolis, a artista comenta como o corpo travesti sofre enormes violências desde sempre e agora, com uma suposta aderência das grandes empresas a causas trans, seu corpos são visados para o lucro. Este poderia ser um cenário desestimulante, mas não para Linn. Não para uma voz que em outro momento bradava “Essa bicha é molotov”. Além deste cenário, o contexto pandêmico coloca Linn em uma posição de reavaliar sua identidade, a qual já foi caracterizada por ela de várias maneiras: bicha, travesty, periférica, preta, nem ator, nem atriz, atroz, performer e terrorista e gênero. São tantos conteúdos, tanto a discutir, interpretar e ressignificar, que Linn se encontra em um turbilhão de palavras, que podem confundir no começo, mas depois revelam sua verdadeira natureza plural. Estamos diante de um verdadeiro Trava Línguas.

Seu segundo disco foi concebido inicialmente como uma performance, mas ao longo do tempo foi se transformando, característica que se assemelha à própria obra de Linn. Não é uma questão de para onde estas mudanças vão levar a artista, mas o processo em si. Para isso, a estratégia de Linn é colocar estas mudanças tão repentinas na forma de palavras e no deslizamento de seus significados. Na escolha de pares de expressões é onde encontramos os diversos tons de Linn – divulgar/divagar, socorro/só corro, posso/poço, meu;/mel, seu/céu – entre outros. É até irônico que um trava língua seja inicialmente pensado para confundir aquele que tenta dizê-lo, porque, no disco de Linn, parece que quanto mais se fala e se ouve dessas verdades entre pares, mais nos perdemos na própria artista e, assim, a compreendemos.

Com a produção afiada de BADSISTA e da percussionista Dominique Vieira, o disco também explora a mansuetude pelas sonoridades, deixando os gêneros mais agressivos em segundo plano, flertando com nuances da MPB. O single “amor amor” utiliza a percussão afro como invólucro do Amor de Linn, expresso em uma emocionante melodia. “I míssil”, outro brilhante jogo de palavras da artista, se perde entre pads de sintetizadores imersivos, quase fragmentados. “onde” se apoia em subgêneros da música eletrônica, retomando um pouco do momento Pajubá, mas ousando mais com o Drum N Bass. O voguing dos anos 90 entra em pesado com “mate & morra”, faixa que também deixa claro que, apesar de mais suave, ainda há momentos agressivos em que Linn cresce. Por fim, “quem soul eu” encerra sua auto investigação, com a pergunta que motivou a criação do disco. Este processo é tão intenso, que o disco termina com Linn reescrevendo a história bíblica –“Eu quebrei a costela de adão”.

Em Trava Línguas, Linn da Quebrada encontra novos terrenos para que possa continuar a se expandir, ao mesmo tempo que olha para si mesma e se desconstrói a cada instante. Seria impossível esperar um segundo Pajubá, pois a Linn de 2017 não está mais aqui. Entretanto, ironicamente, ela está presente na medida em que se transforma, e é isso que este disco procura trazer. Através da desconstrução de uma língua que por muitas vezes é usada como objeto de agressão, Linn olha para todas as direções de si própria e sua força continua gigante e soberana.

(Trava Línguas em uma faixa: “I míssil”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.