Resenhas

Little Green Cars – Absolute Zero

Disco de estreia do quinteto irlandês passeia por diversas vertentes do Folk e bebe na fonte de muitas bandas que visitam o gênero

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Ano: 2013
Selo: Glassnote Records
# Faixas: 11
Estilos: Indie Folk, Folk Experimental,Folk
Duração: 47:36
Nota: 4.0
Produção: Markus Dravs
SoundCloud: /tracks/67129242

Há alguns anos, a música Folk vem reconquistando seu lugar de destaque no panorama musical e faz isso resgatando tradições populares e as adaptando a um novo cenário. Se por um lado grande parte da instrumentação, os versos sinceros e belas interpretações vocais continuam sempre presentes, o estilo pode ganhar um pouco de frescor e certa sensação de novidade ao se unir a outros gêneros ou ao emprestar alguns elementos deles.

Em seu disco de estreia, Absolute Zero, o quinteto irlandês Little Green Cars mostra exatamente isto. Ele sabe se apropriar dos “lugares comuns” do gênero e usar a familiaridade com outras tantas bandas a seu favor. A variedade de vertentes do Folk e elementos de outros estilos também é um ponto forte deste disco que consegue jogar o ouvinte de um lado para o outro durante todo o álbum e ainda assim manter sua coesão melódica e lírica.

Sei que pode parecer um clichê dizer que um álbum de Folk recorra à melancolia e às vezes ao bucolismo para construir grande parte de suas letras e arranjos, mas este é um disco que sabe emocionar, mesmo que seja construído em cima de uma sensação amplamente difundida em obras do gênero. Os versos poéticos e geralmente fortes ajudam bastante a criar esse seu “fator emocionante”.

A grande variedade estilística é sentida por todo o álbum. O início com Harper Lee mostra um Folk contemporâneo de bandas como Band of Horses ou Mumford and Sons, nas quais existe um grande flerte com o Rock; Angel Owl, por sua vez, traz um pouco do Indie Rock de Frightened Rabbit ou Death Cab for Cutie; My Love Took Me Down to the River to Silence Me tem um quê de Florence + the Machine e Anna Calvi, em uma das poucas faixas inteiramente conduzidas pela forte voz de Faye O’Rourke.

The Consequences Of Not Sleeping traz algo mais campestre e puro, quase caipira em alguns momentos. Comparações com Keaton Henson ou The Tallest Man on Earth cabem bem nesta faixa. A festiva Big Red Dragon pode remeter à mesma vibe de Harper Lee e nela se vê a mão do produtor Markus Dravs, que já trabalhou com nomes como Mumford and Sons, Coldplay e Arcade Fire e sabe muito bem produzir faixas com este teor.

A maior surpresa do disco fica por conta de Red And Blue, que parece um crossover entre os álbuns autointitulados de Bon Iver e James Blake. O uso do auto-tune e a ambientação minimalista fogem completamente de tudo o que foi apresentado até agora. A faixa não decepciona, mas perde o foco dentro do disco. Mais uma vez perto do que Justin Vernon faz em sua banda, The Kitchen Floor cria um dos momentos mais belos dentro do álbum – momento esse guiado novamente pela ótima voz de O’Rourke.

O ótimo single The John Wayne mais uma vez traz o Folk Rock como principal inspiração e faz isso se aproximando mais uma vez de Band of Horses. Esse é um dos pontos mais altos do disco e exemplifica o potencial lírico do disco. A faixa mostra alguns clichês (temas amorosos e uma pegada Western) sendo trabalhados de maneira a evitar soar assim e como resultado vemos uma das melhores canções do grupo.

O disco não se manteve linear até agora e a trinca final consegue ser ainda mais díspar, criando um momento quase esquizofrênico. Enquanto Please tem um clima frenético e poderia facilmente cair nas pistas de dança ao redor do mundo e a última faixa, Goodbye Blue Monday, é um dos momentos mais enraizados na simplicidade do Folk, sendo acompanhado somente por voz e violão. Them cria algo nesse meio termo e apresenta uma proposta Pop ao som talhando por Fleet Foxes ou Dry The River.

Não se preocupando em ser original e sim em soar fresco, Absolute Zero é um verdadeiro passeio pelo gênero e pelas diversas formas que pode assumir. Com a liberdade de criar sem nenhuma barreira estilística, muitas vezes propondo muito mais que o Folk em suas faixas, o quinteto de Dublin acaba por criar um conjunto com ótimas canções que encantam e empolgam na medida certa.

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts