Resenhas

Little Simz – Drop 6

Com confiança renovada, britânica troca o jazz rap por batidas sintéticas em EP que marca período de transformações internas e externas

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Ano: 2020
Selo: Age 101 Music
# Faixas: 5
Estilos: UK Hip Hop
Duração: 12'
Produção: Little Simz, Kal Banx, BLK VYNL, St Francis Hotel, OTG

Para os desavisados, pode ter parecido que Little Simz era uma figura nova na música quando seu álbum de 2019, GREY Area, começou a angariar elogios de críticos e aparecer em listas de fim de ano. Mas não se engane: a rapper britânica lançou sua primeira mixtape, STRATOSPHERE, em 2010, nove anos antes de seu terceiro álbum de estúdio ser indicado ao Mercury Prize e da artista viajar pelo mundo, apresentando-se em festivais como o Primavera Sound, em Barcelona, e o Popload Festival, em São Paulo.

É deste ponto alto de sua carreira que Little Simz lançou o EP Drop 6, no dia 6 de maio. Mas a concepção e produção do novo trabalho se deu a partir de um ponto baixo, não só para a rapper como para todo o restante do planeta: Drop 6 começou a ser feito após o primeiro mês de isolamento social devido à pandemia de Covid-19. “Não era um plano para esse ano”, contou Little Simz, em entrevista à BBC Radio 1. Ela disse que o projeto surgiu “out of the blue” – como a arte de capa.

Drop 6 abre com “might bang, might not” (que, respondendo à dúvida do título, é, sim, um banger), já chamando a atenção do ouvinte que se impressionou com GREY Area pela mudança de sonoridade. Muito do EP trabalha com essa mudança: no lugar de instrumentais de jazz rap utilizados no trabalho anterior, temos batidas sintéticas e graves bastante inspirados por gêneros como Drum and Bass e UK Garage – na linha de alguns dos contemporâneos britânicos, como Slowthai, e até de seus próprios trabalhos no início da carreira.

Na mesma entrevista, Little Simz conta que o processo de gravar o EP foi bem similar ao de quando ela começou a fazer a própria música. Isto é, apenas ela e seu equipamento na sala de casa, trabalhando com batidas recebidas dos produtores, sem ajuda externa – talvez por isso a sonoridade mais familiar. O título Drop 6 também é uma referência a uma série de EPs que ela lançou entre 2014 e 2015 e que levam o mesmo título.

Mas a própria Little Simz se encarrega de nos lembrar que, apesar das semelhanças, muito mudou de lá para cá. Faixas como “damn right” e “you should call mum” parecem fluxos de consciência da rapper, atualizando seus ouvintes sobre o que ela vem sentindo e passando após todo o sucesso no ano passado. Os flows também parecem mais dinâmicos e inconstantes, como se ela tivesse muito a falar em um curto período (ao todo, as cinco faixas do EP somam 12 minutos) e não soubesse o que dizer primeiro.

Uma confiança renovada e reafirmada constantemente ao longo do trabalho é o principal efeito do sucesso recente da rapper. Na primeira faixa, Little Simz diz que “vocês não viam nada como eu desde a Lauryn Hill nos anos 90” e conta toda a trajetória que a levou ao topo de seu jogo com GREY Area (“Nada de escada rolante / Tivemos que subir os degraus”, diz). Mas o EP também é uma lembrança de que nem tudo são flores após o sucesso, e, em suas faixas mais pessoais e íntimas, ela discorre sobre o medo de falhar e a insegurança envolvida em ter atingido o patamar pelo qual tanto trabalhou.

Drop 6 marca uma transição para Little Simz em muitos sentidos possíveis. Uma transição sonora e de momento de carreira e, especialmente, uma transição de vida e de modelo de sociedade com o isolamento social e a pandemia. Apesar de curto, é um trabalho inconstante, mas com uma razão para tal: funcionar como um mapa mental de uma artista enfrentando diversas mudanças em seu interior e exterior. Como a própria rapper escreveu num post sobre o lançamento do EP, “the only way out is through” (“o único caminho para o fim é através”).

(Drop 6 em uma faixa: “might bang, might not”)

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ARTISTA: Little Simz