Resenhas

Little Simz – Sometimes I Might Be Introvert

No aguardado sucessor de “Grey Area”, artista britânica amplia a mensagem e a musicalidade em um dos grandes lançamentos do ano

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Ano: 2021
Selo: AGE 101 Music/AWAL Records
# Faixas: 19
Estilos: Rap
Duração: 65'
Produção: Inflo, Jakwob e Miles James

A começar pela (única) má notícia: Little Simz bateu na trave e por muito pouco não fez um disco perfeito. Isso por uma escolha estética e narrativa de incluir longos interlúdios a cada poucas faixas, o que torna a mais de uma hora de duração de Sometimes I Might Be Introvert um pouco cansativa, até mesmo ansiosa para que cheguem logo as músicas – essas sim, todas nota 10. E é aí que se iniciam os elogios à obra, e eles não são poucos.

Essa crítica faz mais sentido se voltarmos um pouco no tempo e observarmos a estrada que levou a rapper londrina ao lançamento do álbum. Em abril, cinco meses antes dele sair, a faixa “Introvert” (que ajuda a batizar o disco) saiu dando largada a uma série de singles que mostravam como a artista conseguiu dialogar com uma sonoridade grandiosa e complexa para acompanhar seus tão afiados versos sem perder uma qualidade Pop – um fator que contribui para seu trabalho ser acessível a um público maior sem nunca abrir mão da força de sua mensagem.

Foi esse o padrão seguido pelas próximas músicas lançadas: A grooveada e feminista “Woman”, a intensa “Rollin Stone” (que começa com Little Simz relatando a sensação de estar em São Paulo comendo palmito após atravessar tantas dificuldades na vida) e “Point and Kill”, na qual convida o nigeriano Obongjayar para celebrar suas raízes conterrâneas em uma musicalidade referencialmente africana. Além dessa qualidade amigável e, simultaneamente, intensa, a variedade sonora entre uma e outra é uma boa amostra do que encontramos no álbum completo.

Da curtinha “Two Words Apart” (que promove um encontro sempre frutífero do Soul com o Rap) à dançante “Protect My Energy”, passando por faixas como “Speed”, que mostram que o trabalho com Gorillaz deixou alguma influência em sua estética, todo Sometimes I Might Be Introvert apresenta surpresas que nem seriam lá tão necessárias assim para segurar nossa atenção. Isso porque o talento para rimar e versar que Little Simz sempre nos mostrou está em uma fase ainda mais madura, combinando diversas nuances vocais à sua interpretação.

É uma escolha artística que reforçou o conteúdo tão pessoal de sua lírica, que escancara vários aspectos da sua vida, seja a infância problemática, passando pela experiência de quase ter falecido (“Q, Pt. 2”) ou suas novas descobertas sobre o que é amar e ser amada (“I See You”). A rapper vai do afeto ao dedo na ferida entre uma música e outra, cantando em primeira pessoa sempre na exposição de sua narrativa em uma obra autobiográfica por excelência, tanto pela tradição do Rap quanto pelo senso de estar sendo transformada pelo trabalho que ela vive há poucos anos, principalmente após o laureado Grey Area (2019).

O disco seguinte, portanto, é uma grande resposta ao reconhecimento – para não dizer “fama”. Salta à audição um verso como “I’m the version of me I always imagined when I was younger” (em “How Did You Get Here”), que sintetiza muito do conteúdo da obra. Little Simz chegou ao patamar com que sempre sonhou e aproveita seu espaço para ampliar mensagens, discursos e histórias de grande relevância, como a sua própria. E faz isso em músicas que justificam a cada beat e verso todos os elogios que vêm recebendo.

E os interlúdios? Atrapalham a audição sim, principalmente no flow do álbum, porque a qualidade das faixas é tão alta (a ponto do crítico não temer o uso do termo “perfeito” no primeiro parágrafo) que as interrupções chegam a frustrar. Mas ignore as interferências e se concentre na música: O que fica para a história é a grandeza da obra, de uma artista da mesma estatura.

(Sometimes I Might Be Introvert em uma faixa: “Woman”)

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ARTISTA: Little Simz

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.