Resenhas

Liz Phair – Soberish

Veterana do Rock Alternativo resgata parceria com o produtor Brad Wood em repertório nostálgico e de poesia honesta

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Ano: 2021
Selo: Chrysalis Records
# Faixas: 13
Estilos: Rock Alternativo, Indie Rock
Duração: 44'
Produção: Brad Wood

Liz Phair é um desses raros casos nos quais se aplicam merecidamente o conceito “voz de uma geração”, tendo causado bastante comoção desde 1993, quando lançou seu aclamado álbum de estreia, Exile in Guyville. Após influenciar diversas musicistas com seu feminismo dentro do Rock Alternativo, ela retorna – 11 anos após seu último disco –para falar às novas gerações. O formato escolhido? Músicas que parecem ter sido feitas há 30 anos.

Escutar Soberish em 2021 traz, na primeira audição, a sensação de que Liz chegou atrasada para o tal revival dos anos 1990. Até o tratamento de som (enquanto mixagem e masterização) parece simular o que a norte-americana fazia no começo da carreira. Isso não é necessariamente um problema, mas confere ao lançamento uma qualidade nostálgica que, no contexto de sua carreira, pode ser mal interpretada como uma espécie de oportunismo.

Isso porque seu último álbum, Funstyle (2010)(e, na verdade, assim como os que vieram logo atrás dele) só não passou despercebido do público e da crítica porque foram, de fato, trazidos à tona para receber duras palavras. Talvez uma crítica negativa tenha outro sabor quando você é uma artista que fez história anos antes, o que faz com que ela queira voltar àquele 1993 de todas as formas possíveis com este lançamento – incluindo chamar Brad Wood, o mesmo produtor de Exile in Guyville, para comandar este álbum.

A própria Liz já disse que escreveu as novas músicas nas saudades de seus tempos de faculdade, quando estudava arte, escutava New Wave e Art Rock e começou a trabalhar em suas primeiras mixtapes. Ou seja, este disco não é para quem esperava uma versão contextualizada da artista, mas para aqueles que queriam mais de quem ela já foi um dia. E se todas as músicas da obra chegam com cara de “já ouvi isso antes”, escutar o que ela tem a dizer segue sendo o ponto alto da audição de seu trabalho.

Soberish é sempre eficaz ao trabalhar o estilo que Liz desenvolveu há três décadas (responsável por destacá-la no cenário do Rock Alternativo) com versos sobre sexualidade que não abrem mão da sinceridade, da sensibilidade e, às vezes em primeiro plano, do bom humor. Ao longo do disco, ela brinca com a palavra “pussy” para falar de sua gata na ambiguidade do termo (também usado para a genitália feminina) em “Bad Kitty”, se recorda das noites do passado como uma rockstar em “Dosage” (“a fun night can lead to sex and scandal”) e canta sobre se entregar às paixões com auxílio do álcool na faixa-título.

É interessante pensar como essas palavras são recebidas hoje, em um momento diferente para as mulheres e para o feminismo do que aquele de quase 30 anos atrás. Suas narrativas não são tidas como tão provocativas como antes, visto que é frequente vermos outras artistas tratarem dos mesmos temas. Com tudo isso em mente, a avaliação de Soberish é de uma obra válida como a reinserção de Liz Phair na cena que ela ajudou a construir, em um trabalho mais simpático do que seus anteriores, mas que encontra sua validação mais em sua trajetória e relevância, digamos, histórica do que por si só, como álbum.

Os fãs, de outrora ou das novas gerações, encontrarão um Rock Alternativo honesto e redondinho, mas sem maiores atrativos do que a própria Liz – que revelou ter decidido trabalhar em novas músicas quando seu empresário lhe telefonou, após Prince e David Bowie terem falecido, para lhe perguntar: “O que você está fazendo com sua carreira? Você não sabe que pode estar morta amanhã?”. E ela, no maior estilo Liz Phair, concluiu que não poderia morrer com Funstyle como seu último disco lançado.

(Soberish em uma faixa: “Good Side”)

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ARTISTA: Liz Phair

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.