Resenhas

Lizzo – Special

O carisma e o talento da cantora são sempre bem-vindos, mas disco mais recente, cheio de boas escolhas de mercado, não encanta como seu antecessor

 93 total views,  1 views today

Selo: Nice Life/Atlantic Record
# Faixas: 12
Estilos: Pop, Disco, Pop Rap
Duração: 35'
Produção: benny blanco, Blake Slatkin, Chris Keys, Daoud, Ian Kirkpatrick, ILYA, Kid Harpoon, Mark Ronson, Max Martin, The Monsters & Strangerz, Nate Mercereau, Omer Fedi, Phoelix, Pop Wansel, Quelle Chris, Ricky Reed & Terrace Martins

Talvez você se lembre como foi escutar Cuz I Love You, o disco que “resetou” a carreira de Lizzo em 2019. Com dois outros álbuns nas costas, foi esse o lançamento que projetou a cantora estadunidense a uma das vozes – e personalidades – mais interessantes do pop. Dona de um bom humor irresistível, seu trabalho logo foi propagado por todo o conteúdo que vem junto à sua música, como a maneira que ela dialoga com as expectativas sociais sobre uma 1) mulher 2) preta 3) gorda – não era o caso de “pessoa certa no lugar certo”, mas da melhor artista possível para ocupar o mainstream com essas pautas. Faixas como “Truth Hurts” e “Juice” viraram hinos de toda uma nova geração nas mídias digitais e, ao mesmo tempo, as estruturas de mercado por trás da marca Lizzo encheram seus cofres com o produto ideal. É nesse contexto que Special é lançado.

Suas 12 faixas “iniciais” (digamos assim, na suspeita de que novas versões do disco podem chegar a qualquer momento) condensam exatamente a expectativa que público e indústria têm da artista. Tão carismática quanto desbocada, Lizzo começa o disco com um “Hi, motherfuckers, did you miss me?” na mensagem positiva de “The Sign”. É a largada para uma coleção de mensagens empoderadas feitas sob medida para qualquer rede social (TikTok, é claro, incluso). É tudo leve e divertido, ainda que sensível nos temas e com boas sacadas culturais, como a ressonância do termo “bitch” em um uso afetuoso e brincalhão (como na faixa “I Love You Bitch”) ao invés de ofensivo e depreciativo.

Há mensagens sobre autoaceitação e seu impacto nas relações amorosas (como em “2 Be Loved (Am I Ready)” e “Naked”), uma música feita especialmente para seu público LGBTQIA+ (“Everybody’s Gay”) e também um convite à sororidade (no single “Grrrls”, que teve sua letra rapidamente alterada após o uso de uma palavra ser apontado como ofensivo). Quando você desconfia de que todas as escolhas do repertório foram feitas baseadas ou em algoritmos, ou em pesquisas de marketing, você se depara com a canção “Birthday Girl” e tem certeza de Special é diferente da coleção de músicas dos álbuns anteriores, recortada de um novo momento. É essencialmente um ímpeto de continuar em uma mesma onda já em movimento. Não é um problema, sejamos francos, visto que a música pop feita pela grande indústria sempre foi assim, mas é aí que o disco esbarra em seus dois maiores problemas: superficialidade e repetição.

Veja “About Damn Time”, por exemplo. Single principal de Special, a faixa cumpre seu papel com louvores de ser o hit que se propõe a ser, e é difícil não cantarolar e querer dar pelo menos uma dançadinha sempre – sempre mesmo – que ela toca. Mas essa que é a melhor música do disco é uma versão diluída da junção de “Another Bites the Dust” e “Get Lucky” combinadas com a personalidade (ou persona?) da artista. Bem-feitíssima, mas nada original. E o “bitch” que ela solta na transição para o último ato da canção é engraçadinho nas primeiras audições, mas logo aponta o quanto esses recursos fáceis de chamar atenção são usados em todas as faixas. No repeat, grande parte do disco fica com cara de piada velha, de algo que você até sabe porque riu no passado, mas que já não tem mais tanta graça.

São músicas produzidas com a melhor estrutura de qualidade possível, mas que, juntas ali, oferecem uma experiência cansativa e um tanto fraca nas letras muito leves, muito “direto ao ponto”. O carisma e o talento de Lizzo são sempre bem-vindos, mas Special, mesmo cheio de boas escolhas de mercado, não consegue encantar como seu antecessor. Talvez a melhor maneira de aproveitar esse que é seu quarto álbum seja aderindo ao raciocínio com o qual ele foi feito e desencanar do formato disco: ouça suas faixas soltas ou em playlists. Ou isso, ou apenas aguarde as oportunidades de uso dessas músicas em algum feed:

(Special em uma faixa: “I Love You Bitch”)

 94 total views,  2 views today

ARTISTA: Lizzo

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.