Resenhas

Lomelda – Hannah

Com arranjos elaborados e intensos, Hannah Read remói emoções profundas e nos fisga pela sensibilidade ímpar

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Ano: 2020
Selo: Double Double Whammy
# Faixas: 14
Estilos: Folk, Emo, Singer-songwriter
Duração: 40'
Produção: Tommy Read & Hannah Read

Mesmo com uma ferramenta de busca tão formidável como a internet, é incrível que ainda encontremos cantinhox onde se escondem artistas incríveis cuja pouca repercussão se mostra uma injustiça. Este talvez poderia ser algo como um fardo carregado por Hannah Read e seu sensível projeto Lomelda, mas não é. Criada em uma pequena cidade localizada na fronteira entre Texas e Louisiana, Hannah tem colocado no mundo registros de uma sensibilidade tocante, espremendo-se pelos caminhos do Indie Folk e adicionando um toque inconfundível de Emo do começo dos 2000 (algo entre Death Cab For Cutie e Mineral).

Ao contrário deste último gênero, a compositora encontrou refúgio em seu violão de nylon, entre acordes simples e uma voz frágil que entoava letras introspectivas e quentinhas – principalmente no primeiro trabalho de estúdio, 4E (2016). Assim, a relativa baixa repercussão que ganhou na mídia internacional não pareceu um empecilho para sua carreira, mas até mesmo uma inspiração para sua forma de se expressar. Lomelda parece se movimentar melhor pelos cantos escondidos, longe das aglomerações. É lá, em contato com suas emoções, que ela constrói o que há de mais sincero em suas canções.

Entretanto, espaços menores aparentam não ser mais capazes de comportar a grandeza emocional com a qual Hannah trabalha e, dessa forma, um novo disco vem suprir essa carência espacial. Hannah é o quarto trabalho sob o nome de Lomelda e, certamente, o que parece alçar voos mais ambiciosos. Em dobradinha com seu parceiro de longa data de produção musical, seu irmão Tommy Read, o projeto cria um grande campo por onde a compositora constrói diferentes estruturas para dar vazão ao que sente. Temos faixas de diferentes naturezas, desde baladas com um violão, passando por composições mais Rock de banda completa, incluindo até interlúdios com truques de edição de áudio que incrementam a face imersiva do trabalho.

Em entrevistas, Hannah comenta que o disco nasceu de uma necessidade de explorar sua responsabilidade em se comunicar. Não com o intuito de apenas repassar uma mensagem, mas para se conectar consigo mesma e com as pessoas ao seu redor. A fragilidade dos acordes e as letras que parecem ter sido retiradas de um diário pessoal nos mostram a urgência que a compositora sente de criar estes vínculos. Talvez por isso o disco seja tão acolhedor, apesar de intenso emocionalmente. Em cada música, Hannah nos fisga por diferentes frentes: seja pelas letras, pelos arranjos acolhedores, pelos momentos de catarse. Hannah cria um labirinto em que achar a saída não é o objetivo final, mas desbravar os caminhos cada vez mais internos de suas necessidades.

Como boa anfitriã, Hannah começa de uma forma branda e leve, com a suave “Kisses”, uma faixa sustentada por pianos tímidos e acordes constantes. “Wonder”, por sua vez, é frágil, mas nos entrega a força inconfundível dos acordes abertos do Emo, sustentando a recorrente frase “Quando conseguir, dê tudo de si”. “Reach” é um dos vários picos catárticos do disco, principalmente no refrão que engata um dueto esganiçado, berrando com todas as suas forças “pensando em como eu estava lá para você também”. “It’s Infinite” se aproxima mais do Indie Folk, no dedilhado suave de violão de aço constantemente retrucado por percussões fortes. As frequências mais graves ganham espaço em “Big Shot”, com um baixo profundo que lateja nossas cabeças, desacelerando as coisas. Por fim, “Hannah Please” nos deixa emocionados com uma cena: Hannah se questionando porque não consegue falar o que quer.

Apesar de Hannah ser um momento grandioso e ambicioso dentro da discografia de Lomelda, ele ainda sim é muito particular e, por isso, tão atrativo. Podemos nos identificar em algum grau com as vivências aqui apresentadas, mas não podemos deixar de compreender o foco: esse é um disco sobre Hannah, sobre um processo intenso. Como se estivéssemos em museu de esculturas, cada qual com sua personalidade e expressão, mas todas dizendo respeito a uma única artista. Um cantinho escondido onde se revela muito.

(Hannah em uma faixa: “Reach”)

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ARTISTA: Lomelda

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.