Resenhas

Lorde – Solar Power

No aguardado terceiro disco, estrela neozelandesa muda a marcha, mira na simplicidade, mas decepciona

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Ano: 2021
Selo: Universal
# Faixas: 12
Estilos: Pop Psicodélico, Soft Rock, Indie, Indie Folk
Duração: 43’
Produção: Lorde, Malay e Jack Antonoff

Quarentena não é férias – a não ser, claro, que seu nome seja Ella Marija Lani Yelich-O’Connor, alguém que calhou de nascer na Nova Zelândia, país que em junho de 2020 já flexibilizava as restrições impostas pela Covid-19. Quando penso na realidade paralela vivida pelos neozelandeses, a imagem que vem à mente é a do Paraíso das gravuras adventistas: um jardim de cores vibrantes com pessoas felizes em meio a leões fora de escala e tigres brancos.

Não é muito diferente do cenário de “Solar Power”, clipe que marcou o retorno d’Ella, a cantora Lorde, ao mundo dos mortais, quatro anos após o lançamento de seu último trabalho, o aclamado Melodrama (2017). Objetivamente, quatro anos nem é tanto tempo assim, mas a escalada do caos que vivemos, somada à vida reclusa levada pela artista entre um trabalho e outro, fizeram com que o intervalo parecesse uma eternidade. “Did Lorde release a new album today?”, questionava um perfil no Twitter dedicado ao tema, desde junho de 2019 na vigília de sua lenta gestação.

E então fez-se a luz, e ela veio de um lugar em que a luz dificilmente alcança – sim, estou falando da imagem que ilustra a capa de Solar Power, que também é o nome do disco, finalmente lançado em 20 de agosto. É uma forma bastante efetiva de dizer que não estamos mais nos subúrbios de Pure Heroine (2013), nem na festa que serve de cenário a Melodrama, mas sim diante de uma nova era. Será?

“Solar Power”, a música, soa como um encontro entre Primal Scream (que celebrou o paralelo) e George Michael, mas em uma versão pós-praia, aguada, de suas sonoridades características. Conceitualmente, Lorde nos apresenta a sua nova persona como alguém que “está sempre descalça. Ela é sexy, brincalhona, feroz e livre. Ela é uma garota moderna que veste um biquíni fora de catálogo, conectada com seu passado e seu futuro, vibrando ao máximo diante da chegada do verão”, escreve a artista em sua newsletter. Em outras palavras, “a prettier Jesus”. Se fosse outro momento ou qualquer outra artista, seria mais uma música dentre tantas celebrando o verão e a natureza, mas é difícil comprar essa versão. Não temos sol, mas um colapso climático; não temos verão com amigos na praia, mas a variante delta, negacionismo e milhões de mortes na conta. E à nossa frente, uma artista que desde os 16 anos mostra que não se deixa enganar facilmente pelo brilho ilusório de uma utopia sob o capitalismo. Lorde não é o Messias que nos recebe na entrada do Paraíso após um longo período no purgatório da peste – é o que ela diz, não exatamente com essas palavras, em “The Path”, que abre o álbum –, mas sim apenas mais uma pessoa triste e confusa nos convidando para uma jornada de dissociação.

Nos últimos tempos, mais do que nunca, os momentos de paz têm exigido um certo grau de dissociação. O escapismo não é um tema novo, mas a novidade agora está na maneira encontrada pelo capitalismo de capturar essa angústia, essa urgência de fuga, nos oferecendo como resposta soluções de autocuidado e bem-estar. O apelo é inegável, mas o verniz é fino. Se o objetivo conceitual de Solar Power é encarar essa contradição de frente, e ao menos é o que parece quando ouvimos “Mood Ring”, seu terceiro single, a impressão que fica é que faltou a Lorde a ousadia de olhar mais de perto para esse sol que irá nos engolir. Penso em Midsommar, de Ari Aster, que fez a luz do sol parecer aterrorizante, mas estranhamente convidativa. Penso no episódio final de Mad Men, que flerta com a redenção só para depois dizer que não podemos escapar de nós mesmos. Penso no Magical Mystery Tour (1967), dos Beatles, com a angústia de uma contracultura que sabe que não pode vencer, mas insiste no amor como resposta.

A beleza aterrorizante, pois condenada, da natureza, poderia fazer de Solar Power a utopia corrompida perfeita da geração zillennial. Seria um terceiro capítulo interessante para sua obra, que vinha sendo construído a partir de um inventário de emoções contraditórias a partir do olhar de alguém que não consegue escapar da autoconsciência. Suas letras perspicazes, cheias de observações detalhadas que ficam conosco para sempre (“I overthink your p-punctuation use”, de Melodrama), são parte do segredo, deixando o resto por conta da engenharia musical pouco óbvia de suas canções que nos pegam pela mão via ganchos irresistíveis e explosões sonoras que tornaram seus dois primeiros trabalhos verdadeiros marcos do Pop recente. “Supercut”, também do álbum anterior, é uma boa síntese entre essas duas potências, música que nos faz acreditar em igual medida que o amor é a melhor e a pior coisa do mundo. É sobre isso, e não tá tudo bem, mas seguimos.

Em Solar Power, Lorde decide mudar a marcha, mirar na simplicidade e ir na direção oposta do que combina com sua mitologia enquanto artista. O violão que lhe parecia tão cringe na adolescência torna-se presença constante no álbum, algo que ela credita à maturidade recém-adquirida de alguém que entende que não precisa ser do contra para se afirmar. Natalie Imbruglia surge como influência inesperada, e é interessante ouvir “Secrets From a Girl (Who’s Seen It All)” e vê-la articular o Soft Pop que consagrou “Torn” à sua identidade artística. A estranheza fica por conta da participação especial de Robyn, na forma de um voice over anunciado que estamos diante de uma paisagem marcada por um nascer do sol salpicado por euforia e vertigem existencial.

No entanto, a delicadeza agridoce de Natalie Imbruglia, Natasha Bedingfield, Jewel e outros nomes dessa cena pop (e relax) dos anos 1990 e 2000 não cria raízes em Solar Power. Talvez por Lorde ainda não conseguir se desprender completamente daquela sua versão que pensa demais, o que dificulta a entrega à pureza e a uma espécie de “descompromisso” exigidos pela proposta. “Big Star”, música feita em homenagem a Pearl, seu falecido cão, é a investida mais bem-sucedida dessa abordagem mais vulnerável, talvez a única faixa sem cinismo do disco todo.

Mas, se olhamos para o polo oposto, a sátira à indústria do autocuidado trazida por “Mood Ring” é um pouco óbvia demais, assim como são rasteiras as observações sobre o lado perverso da fama que ela tece em “California”. Falta a acidez que a Lorde de 16 anos entregaria, ou ainda um comprometimento mais intenso com o absurdo que uma boa sátira pede, a ponto de causar desconforto em quem ouve. “Fallen Fruit” se destaca justamente ao revelar, tanto do ponto de vista lírico quanto melódico, que Lorde seria plenamente capaz de cumprir essa promessa feita a base de grandes mentes e fumaça de vapers (cedo demais para vislumbrar a sonoplastia de milhares de vozes soprando a fumaça durante a música, na turnê que vem aí?).

“Stoned At The Nail Salon” é outro tiro certeiro nessa direção. Com Phoebe Bridges e Clairo nos backing vocals, a canção tem o compasso letárgico e nebuloso característico de Lana Del Rey, ou de qualquer pessoa que começa a ter epifanias sobre a vida depois de usar um negocinho . Quando ela diz “spend all the evenings you can with the people who raised you”, o verso soa propositalmente raso, exatamente o que se espera de uma pessoa chapada no salão de beleza – ou dos gurus de bem-estar de hoje em dia.

Quem se decepcionou com Solar Power é rápido ao apontar Jack Antonoff como culpado pela diluição do potencial cáustico que a obra poderia ter – com certa razão. O álbum é sua segunda parceria com a cantora, mas a assinatura de Antonoff tem sido tão disputada ultimamente que cada álbum é apenas mais um produced by Jack Antonoff no Antonoffverso. No entanto, ele também já se mostrou capaz de dar conta de um job dessa envergadura. Como fez com Lana Del Rey em Norman Fucking Rockwell (2019), em que vemos a artista quebrar a quarta parede da persona que ela vinha construindo para si, uma imagem falsa e sedutora como o sonho americano. “Goddamn, man child”, ela diz, e de repente todo o artifício se dissolve, enquanto o som mistura elegância onírica a guitarras distorcidas, exatamente como um ideal cultural se desmantelando. Antonoff também está por trás de reputation (2017), álbum mais estranho e incompreendido da carreira de Taylor Swift, e carregar esses adjetivos no catálogo de uma artista que sempre prezou por harmonia e coesão é um grande feito. Até mesmo “Let’s Get Married”, do Bleachers, articula bem a ânsia por fuga e amor que apenas um colapso político e social é capaz de inspirar.

Solar Power não é exatamente um disco de ruim, mas não podemos negar que ele é decepcionante ao levarmos em conta o que ele poderia ser, o que ele nos indica várias vezes que gostaria de ser, mas simplesmente não é. Pela primeira vez, parece que a idade de Lorde jogou contra ela: não mais tão jovem para jogar a merda no ventilador de maneira destemida, mas ainda um pouco imatura (ou simplesmente privilegiada) para a complexidade que essas novas avenidas exigem, pelo menos agora. Como disse uma amiga, o que faltou foi justamente a experiência pandêmica completa, elemento inescapável para a vida que o álbum ganha quando chega ao seu público. Se fosse brasileira, talvez tivesse sido mais fácil se entregar a uma indulgência verdadeira – como fez Pabllo Vittar em seu Batidão Tropical (2021). Se tivesse passado mais tempo na Califórnia, talvez seu cinismo fosse menos banguela. Nesse aspecto, chego a invejá-la.

Quarentena não é férias, mas é isso que todos (sobretudo, Jack Antonoff) merecíamos e Solar Power até quis oferecer, mas infelizmente agora precisamos de drogas mais pesadas – um amor que transcenda a tragédia inevitável, um veneno equivalente ao amargor dos nossos dias, ou simplesmente uma entrega absoluta ao caos.

(Solar Power em uma faixa: “The Path”)

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ARTISTA: Lorde