Resenhas

Low Cut Connie – Private Lives

Adam Weiner reúne histórias de sobreviventes do cotidiano, em uma íntima e comovente narrativa envolta de Blues e Folk Rock americano

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Ano: 2020
Selo: Contender Records
# Faixas: 17
Estilos: Indie Rock, Folk Rock
Duração: 54'
Produção: Adam Weiner

Muitas vezes, é certo que o processo criativo acaba encontrando inspiração nas vivências do próprio artista em questão. Escrever canções com este material é tanto uma forma de processar acontecimentos como de passar a limpo uma história, sob novas perspectivas criativas. Mas nem sempre o próprio artista é o protagonista destas vivências e volta o olhar sensível para fora, enxergando narrativas na vida de outras pessoas. Particularmente para Adam Weiner, esta segunda opção se mostrou mais interessante, e o último disco de sua banda Low Cut Connie traz uma rica coleção de histórias a serem lidas com avidez pelos ouvintes.

Low Cut Connie conserva forte o espírito do Rock americano, com uma nítida predileção pelas sonoridades das décadas de 1950 e 1960 – e o apreço de gente como Elton John, Bruce Springsteen, Nick Hornby, além de Barack Obama. É dessa relação com gêneros como o Blues de Alabama e até mesmo o flerte com o Folk Rock dos anos 1970 que parece surgir a vontade de contar histórias de outras pessoas. Adam Weiner é influenciado por gêneros nos quais as histórias são um ponto central do processo de composição e, agora, cabe a ele reunir as aquelas que o tocam.

A esta compilação deu-se o propício nome de Private Lives, como uma espécie de celebração às vidas que inspiraram o disco. Entretanto, estas não são quaisquer vidas. É um disco sobre sobreviventes; não necessariamente de eventos “históricos” ou que seriam considerados traumáticos, mas sobreviventes do cotidiano. Em entrevista, Adam comentou que tem um particular interesse sobre como a vida das pessoas se desenrolou principalmente em tempos tão conturbados quanto este. Segundo ele, a ideia era justamente agrupar os diversos pontos de vista de sobreviver em uma América, seja essa uma América negra, branca, LGBTQIA+, hétero, rural, urbana. Assim, o formato de disco duplo ganha justificava e força a partir da riqueza dessas histórias – um disco simples provavelmente não seria suficiente para abarcar esta pluralidade viva. Aliás, não apenas o formato final do disco, mas todo o processo de composição e produção foram marcados por uma colaboração intensa, com mais 30 músicos se revezando entre os arranjos instrumentais, bem como diversos estúdios que receberam este grande time.

O curioso é que Adam, que poderia se considerar o organizador destas histórias, também se inclui entre as narrativas. Suas vivências acabam se inserindo em alguns espaços de outras, como uma espécie de identificação sem tirar o protagonismo de seus autores originais. Contudo, embaralhar essas vivências com seus próprios pensamentos é o verdadeiro motor do disco. É justamente na relação de ouvinte destas histórias onde brota a sua sensibilidade para recontar as vivências destes sobreviventes do cotidiano.

A faixa-título abre o disco em uma malemolência Indie 50’s, como se funcionasse como um prólogo que antecipa o grande tema do disco em suas letras – “Em uma sexta à noite, nos reunimos e conversamos sobre esta vida louca”. “Take A Little Ride Downtown” narra a infância de Adam, na qual ele podia ir ao centro da cidade e conhecer diversas pessoas. “Look What They Did” é um momento mais emocionante e calmo, utilizando da suavidade do piano para falar sobre o desemprego do governo Trump e como isso afetou milhares de pessoas – “Olhe o que fizeram com O sonho”. “Quiet Times” se aproxima de um poema musicado sobre como muitas pessoas permanecem no mesmo lugar a vida inteira, principalmente sem-teto e famílias da parte rural dos Estados Unidos. Adam nos convida a permanecer o tempo que precisarmos para ouvir estas histórias, encerrando o disco na emocionante “Stay As Long As You Like”, que abriga uma frase que parece sustentar o sentimento de acolhimento do disco – “Tire sua maquiagem, você pode chorar / Vai ser duro e difícil de sobreviver”.

Private Lives é um disco sobre as histórias que cercam Adam e sobre dar voz a estas pessoas. Mas, inevitavelmente, ele se envolve com os protagonistas das narrativas e nesta relação é que se constrói o aspecto confessional e intimista do disco. É um projeto que expressa como nosso cotidiano é avassalador e que, se conseguimos nos esgueirar por entre estes percalços em mais um dia desta confusão, somos de fato sobreviventes.

(Private Lives em uma faixa: “Stay As Long As You Like”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.