Resenhas

L’Rain – Fatigue

Taja Cheek reafirma versatilidade e experimenta pelo R&B e o Soul enquanto canta sobre angústias e a necessidade de mudar

 270 total views

Ano: 2021
Selo: Mexican Summer LLC
# Faixas: 14
Estilos: Experimental, Soul, R&B
Duração: 29'
Produção: Taja Cheek e Andrew Lappin

Quando falamos sobre mudanças, é preciso tomar certos cuidados para não simplificar as coisas demasiadamente, como um livro de autoajuda. É um tema tão plural que, para dar conta, às vezes fazemos uma sistematização das coisas. Mas como lidar com o inesperado a partir de um manual, se a natureza da mudança é justamente da ordem do imprevisível. Durante a pandemia, fomos expostos a uma quebra tão repentina de nossas rotinas, que tivemos que mudar não por conveniência, mas sobrevivência. Assim, dentro de uma ordem que nos deixa alerta para o imponderável, foi apenas natural que a música viesse como um instrumento de vazão para dar conta das angústias e ansiedades provindas deste contexto. Isto não é necessariamente uma novidade para a produtora  americana Taja Cheek, pois em sua obra, desde cedo, é possível ver que o desconhecido e improvável é matéria-prima indispensável de sua sonoridade.

Em suas composições, Taja tem explorado os diferentes cantos do imprevisível sob o nome de L’Rain. Há cinco anos, com seu disco de estreia L’Rain (2017), ela já deixou claro que seu trabalho não percorre por uma via estereotipada de suas referências. O termo colagem também parece impreciso para descrever o universo de Taja, pois pressupõe uma barreira clara e delimitada entre os elementos dispostos – e no caso da produtora, as coisas caminham em uma direção completamente oposta. Cada ritmo, instrumento e timbre é colocado de tal maneira que o conjunto da obra não é exatamente a soma das partes, mas um organismo vivo repleto de minúcias e mistérios. Aliás, mistério é uma palavra boa para definir a sonoridade de L’Rain. Para que se possa apreciar devidamente seu universo construído, é preciso abrir mão do racional e da sistematização, lançando-se ao estranho. Um estranho que nos cativa. Taja produz fragmentos de vivências tão ricas que ouvir uma mesma música várias vezes certamente trará experiências diferentes em um mesmo ouvinte. Dessa forma, em seu novo disco, ela traz uma nova percepção com relação ao processo de mudança e, frente a tempos tão ensandecidos, isso fica refletido em sua obra.

Segundo disco da produtora, Fatigue reafirma um dos talentos mais autênticos de Taja: a habilidade que tem de, mesmo com um trabalho mutante e com elementos diversos entre si, deixar muito claro quais são suas referências. O R&B e o Gospel assumem um papel central em sua formação musical e é por meio de diferentes elementos destes gêneros que o disco assume um tom extremamente confessional e intimista. A partir de recortes agressivos, misturados a edições de áudio estridentes, Taja dá forma à sua percepção das mudanças.  Apesar de grande parte delas serem motivadas pela situação pandêmica e os reflexos políticos disso nas minorias, Fatigue não é um disco exclusivo sobre Taja durante o COVID-19, mas também a respeito das diferentes mudanças pelas quais passou durante sua vida.

O disco abre de forma interrompida em “Fly, Die”, uma possível alusão aos diferentes momentos que serão trazidos ao longo do disco – em um primeiro momento, isolados, e mais tarde todos juntos e agrupados sob uma mesma roupagem. “Blame Me”, por sua vez, dá a impressão de ser uma gravação dos grandes bailes dos anos 1930, com arranjos fantasmagóricos de cordas somados a uma guitarra suave do R&B. “Suck Teeth” não poupa esforços em exagerar os reverbs, aprofundando-nos mais ainda em suas memórias enquanto o suingue do Soul nos envolve. “Two Face” tem um toque psicodélico junto de uma percussão dançante, trazendo à tona uma cadência rítmica complexa, mas, ironicamente, de fácil assimilação. Já “I V” explora ao máximo os recortes da Ambient Music, entrecortado pelo Jazz e timbres de sintetizadores empoeirados. Por fim, “Take Two” assume o Gospel com toda a força, em um hino eclesiástico sublime, recheado de melodias a fim de louvar, não algum deus, mas a própria história de Taja.

Em seu segundo disco, Taja reafirma uma característica mutante, enquanto passeia por referências de R&B, Soul e Gospel, sempre com apreço pela experimentação. Habilidade fundamental para dar conta de reunir episódios transformadores que não são pontuais no tempo, mas revistos sob a forma de processos. E, por isso, Fatigue tem o nome que tem, pois exaure o ouvinte ao deixá-lo consciente do quão árduo – mas recompensador – é este processo.

(Fatigue em uma faixa: “Blame Me”)

 271 total views

ARTISTA: L'Rain

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.