Luiza Lian – Azul Moderno

Produção impecável trabalha características que cantora tem apresentado ao longo da carreira

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Ano: 2018
Selo: Risco
# Faixas: 10
Estilos: MPB, Pós-MPB
Duração: 36'
Nota: 4.5
Produção: Charles Tixier e Tim Bernardes

Azul Moderno consegue ser a soma, ou consequência, da trajetória que Luiza Lian construiu com seu disco de estreia (de 2015) e, depois, com Oyá Tempo (2017). Seu trabalho, como todas as músicas do novo álbum demonstram, está enraizado no solo da tradição da Música Popular Brasileira e regado com a inspiração das estéticas próprias desta década.

Há espacialidade por um lado e seu antônimo – uma certa crueza sonora – do outro, ambos vindos das influências que a Psicodelia e a música Eletrônica tem em nosso tempo. A voz e a interpretação de Luiza estão sempre em primeiro plano, mesmo quando o preenchimento dos volumes ocupa grande parte daquilo que estamos ouvindo. É um bom aproveitamento de cada um dos elementos, do vocal aos timbres, de maneira que o disco sempre soa atual.

Os temas trabalhados reúnem referências próprias da MPB, do mar e a praia de Caymmi aos substantivos comuns que refletem nosso cotidiano (Geladeira e Notícias do Japão são os melhores exemplos disso). Há também uma constante menção – assim como em seus trabalhos anteriores – a um referencial de religiões afrodescendentes (Sou Yabá, Pomba Gira do Luar). No contexto da produção cultural contemporânea, no qual isso é cada vez mais comum (de Ava Rocha e Xênia França até Ibeyi), fica incerto se isso é um aceno ao nosso folclore ou se reflete as crenças pessoais da cantora.

Reside aí uma característica que marca a audição do álbum (talvez não a primeira, mas uma hora você percebe). Existe a impressão de um certo distanciamento emocional nas faixas, talvez pelo grau de refinamento que elas exibam na produção tão caprichada e, de igual forma, na interpretação da cantora. Em uma época na qual estamos tão acostumados com a artificialidade plástica nos feeds de cada dia, a sinceridade parece encontrar nas falhas a sua leitura mais direta.

Isso não atrapalha nem desvalida Azul Moderno, mas talvez o faça ser lembrado mais pelo valor cultural e fonográfico – o que não é pouco – do que por um diálogo mais íntimo com o ouvinte. De qualquer forma, é um lançamento que, além de firmar o nome Luiza Lian entre os mais relevantes no que a tal MPB se desenvolveu hoje em dia, nos dá uma beleza do tamanho de Mira, ponto alto absoluto da carreira da cantora e, provavelmente, uma das melhores músicas do ano.

(Azul Moderno em uma música: Azul Moderno)

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BOM PARA QUEM OUVE: Xênia França, Elza Soares, Ibeyi
ARTISTA: Luiza Lian
MARCADORES: MPB, Ouça, Pós-MPB

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.