Resenhas

Lust For Youth – Compassion

Novo álbum do grupo sueco escapa da mesmice do Synthpop com belas melodias

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Ano: 2016
Selo: Sacred Bones
# Faixas: 8
Estilos: Synthpop, Pop Alternativo, Eletrônica
Duração: 35:09
Nota: 3.5
Produção: Malthe Fisher

Cá estamos nós neste novo álbum de Lust For Youth. Pra quem não sabe, o grupo é formado pela mente brilhante de Hannes Norrvide e colaboradores, como o produtor Malthe Fisher e Loke Rahbek, meio faz-tudo, meio discretão nos bastidores. Compassion é o quarto lançamento desta galera desde o início da carreira, há sete anos, na aprazível cidade sueca de Gotemburgo. A essa altura, você já deve imaginar qual é a onda destes sujeitos: a elegância das melodias nórdicas é coloca à disposição de um arsenal de timbres extraídos de sintetizadores, dispostos a emular a sonoridade do início dos anos 1980, muito próxima do que bandas como New Order e Depeche Mode estavam fazendo então, com ênfase numa certa “atitude Rock” aplicada ao terreno do que seria chamado de Synthpop naqueles idos.

Fazer isto hoje, em 2016, não é tarefa para amadores. Todos os artistas que se aventuram em recriar esses climas e ambiências parecem incapazes de trazer algo novo para o estilo, soando sempre como se estivessem naquela época, gerando uma sensação chata de nostalgia chique, de exercício de estilo, de tiração de onda. Funciona com quem nunca ouviu os originais, claro, mas dá tédio imediato em quem estava lá, diante daqueles grupos. Posso dizer que esta sensação é bem menor com este álbum. Ainda que ele não traga absolutamente nada de novo – talvez nem seja sua intenção – é possível notar um cuidado com arranjos, uma voz simpática por parte de Norrvide e uma noção suficientemente boa do que significa Synthpop, a saber, a união de arranjos com sintetizadores, visando musicar letras tristonhas e meio desesperadas, revestindo tudo com um verniz deprê, tom cinza-chumbo. Mais que isso: há como perceber belas melodias neste álbum, bem acima da média.

Eu já havia me convencido disso quando chegou Tokyo, a penúltima faixa do disco. É uma elegantérrima canção, com vocais no ponto certo entre a crônica aguçada do cotidiano e o simples tédio, além de um instrumental onde se encontram teclados, vocais processados, batidas e guitarras sintéticas, tudo junto e jogando a favor do objetivo de soar como se fosse uma capa de revista francesa de arte, lançada em, vejamos, 1984. Tokyo, como dissemos, soou apenas como comprovação de algo que já era perceptível logo no início de Confession, com a abertura da bela Stardom, belezura de timbres modernosos que desaguam num mar de sons extremamente familiares. Em seguida vem Limerence, que parece uma faixa de Some Great Reward, quarto trabalho de Depeche Mode, sem dúvida, um senhor elogio para a conta de Norrvide e seus asseclas. Em seguida, Easy Window, um instrumental com vozes em off, evoca imagens geladas de alguma acinzentada cidade europeia, que só existe na memória de alguém. Sudden Ambitions empresta alguma ambiência da bela Enjoy The Silence, de outra fase de Depeche Mode, mas, seguramente, uma de suas melhores criações.

A próxima canção, Better Looking Brother, tem alguma percussão eletrõnica bem colocada, inserida num gentil turbilhão de decalques sonoros familiares, sobretudo uma guitarra psicodelica subliminar, perdida no todo, em algum lugar. Display, logo em seguida, é esparsa, cinematográfica, visual, cheia de pequenos carinhos sonoros, bons para se descobrir com o uso de fones de ouvido. O fecho com In Return serve como um teaser do que pode vir: a batida típica já do fim dos anos 1980, bem parecida com a que surge no megahit da época Sadeness Part I, de Enigma, fornece propulsão para uma canção com vocais recitados em francês e um climão de teclados de catedral gótica alemã. Tudo no esquema, tudo nos conformes.

Lust For Youth é elegante, tem ideia do que está fazendo e soa tão aplicado no estudo das sonoridades Synthpop oitentistas. O grupo alia essa aplicação a melodias bem bonitas, muito além da nostalgia. Compassion é um disco bem bonito, com cara de passado e jeito de presente.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.