Resenhas

Lykke Li – EYEYE

Artista sueca traz novas formas de representação da tristeza, lançando-se em um limbo infinito de texturas frias e marcantes

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Ano: 2022
Selo: Play It Again/Crush Music
# Faixas: 8
Estilos: Pop, Indie Pop
Duração: 33'
Produção: Lykke Li e Björn Yttling

Quando pensamos na “canção de sofrência”, alguns nomes de artistas costumam brotar em nossa cabeça automaticamente. Talvez para os brasileiros, a eterna Marília Mendonça seja a primeira referência, com suas letras marcantes por traduzir de forma clara a dor de um coração romântico. Outros talvez reconheçam no emo um gênero prolífico para gritar toda a angústia da paixão, com uma gama de bandas que inclui de Dance Of Days a My Chemical Romance. Há ainda aquele conjunto específico de cantoras e cantores dos anos 1980 que não mediam esforços para compor os famosos hinos “mela cueca” – cujos maiores representantes se situam entre “How am I Supposed To Live Without You?”, de Michael Bolton, e “All By Myself”, de Celine Dion. Essa rápida passagem por diferentes nomes da música de sofrência revela que a tristeza se expressa em diferentes perspectivas, o que torna este universo altamente relacionável pelos ouvintes.

Contudo, há um nome específico do pop que procura abordar a tristeza a partir desta perspectiva camaleônica, tomando diferentes formas dependendo do contexto. Para a cantora, compositora e produtora sueca Lykke Li a tristeza é uma marca registrada de sua obra – não apenas como forma de dar vazão a angústias pessoais, mas em uma autêntica relação de interesse na tristeza como, praticamente, um objeto de estudo. Sua discografia é, portanto, uma jornada pelas diferentes facetas do entristecer. É curioso ver como a artista investiga a sofrência de formas diferentes em cada um de seus álbuns. Seu segundo disco, Wounded Rhymes (2011), trouxe um lado mais sinistro e gélido, apostando em sonoridades espaçadas como se fossem grandes vazios – vazio este que criou as condições ideais para que o single “I Follow Rivers” se popularizasse rapidamente. Em 2018, ela explorou um lado mais pop da sofrência, com maior desenvoltura e saindo daquele lugar comum da “pobre garota indie e triste” e entrando na tristeza como qualidade. Não tinha como isso ficar mais claro do que no título deste álbum, so sad so sexy. Quatro anos depois, Lykke Li entrega ao público uma nova forma de compreender a tristeza, se afastando de qualquer caminho já utilizado previamente, mas também não dispensando os ensinamentos que estes lhe renderam.

EYEYE é o momento mais profundo em que a artista já esteve, não no sentido de “profundidade poética”, mas do tanto que Lykke Li mergulha em si mesma. A capa do disco, escura e revelando um olhar ambíguo e misterioso, é um ponto de partida para compreender o mundo que a cerca. A tristeza aqui é representada a partir de um lugar muito específico – que todos já chegaram a sentir, mas têm dificuldade para expressar. Esta é a tarefa de Lykke Li e, como resultado, ela chega à conclusão de que a melancolia também se consolida como um grande limbo e seus diferentes significados.

O limbo como um espaço vazio onde são jogadas todas as coisas que não queremos parece ser um dos significados mais proeminentes de EYEYE e este direcionamento parece ter direta relação com a estética sonora escolhida. Mais uma vez trabalhando junto de Björn Yttling, há uma nítida predileção pela ambientação menos rítmica, deixando as guitarras, sintetizadores e vocais se dispersaram pela imensidão escura deste limbo. Há alguns momentos em que existe alguma percussão ou marcação de ritmo, porém apresentadas de forma sutil, mais como acessórios do que propriamente um eixo de orientação. Esta escolha é essencial para a apreciação do disco, pois dá ao ouvinte uma liberdade maior para se estender pelos vários cantos obscuros do trabalho.

Um pequeno choro de pássaro é o primeiro som identificável deste registro, colocando em evidência a nossa fragilidade e pequenez diante do universo que  Lykke Li irá pintar. “No Hotel” necessita apenas de uma guitarra constante e a voz reverberada da artista para nos impactar – é a faixa que nos situa no meio deste limbo. “Highway To Your Heart” traz os sintetizadores fechados e densos a serviço de tornar-se um fardo para o ouvinte, fazendo com que nós possamos sentir a dificuldade que é transitar pelos diferentes caminhos da sofrência. “Carousel”, por sua vez, carrega uma ambiguidade na forma como os acordes aparentemente felizes são arranjados em um contexto que os faz parecer tristes – indo um pouco no caminho de so sad so sexy. Por fim, “ü&i” se aproxima da estética do disco Wounded Rhymes para juntar os diferentes caminhos que tomamos nesta jornada em uma mesma canção – caótica, porém familiar.

EYEYE mostra Lykke Li fazendo o que sabe fazer de melhor: nos fazer enxergar a tristeza como mais do que apenas um chorinho ou uma melancolia de domingo. Ela é uma profunda conhecedora deste terreno e nos guia por esse limbo. Mais do que mostrar uma faceta nova da tristeza, Lykke Li proporciona ao ouvinte a sensação de viver este limbo infinito e arrastado, o que faz com que a leitura do título ganhe um aspecto de onomatopeia de um grande suspiro. Esta é a sensação de passar por esse disco: um alívio que, nesta relação próxima com a tristeza, nos permite conhecê-la melhor.

(EYEYE em uma faixa: “Highway To Your Heart”)

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ARTISTA: Lykke Li

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.