Resenhas

M.I.A. – Matangi

Caos, psicodelia, intensidade e tudo mais o que podemos encontrar no terceiro mundo permeiam o quarto disco da cantora, uma experiência única e extremamente sensorial.

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Ano: 2013
Selo: N.E.E.T. Interscope
# Faixas: 15
Estilos: Hip Hop, Eletrônico
Duração: 57:16
Nota: 4.0
Produção: Danja, Hit-Boy, M.I.A.

Caso existisse um país que representasse a gênese do mundo e o pluralismo que ele tomaria a partir de um simples faísca, este lugar seria a Índia. Poucos domínios conseguem capturar tão bem o conceito de coexistência como lá, um local em que ricos, pobres e um milhão de religiões transitam como se não existisse julgamento. Apesar de M.I.A não ser indiana, mas sim londriana e não ter origem no país mas sim do vizinho Sri Lanka, o som criado pela cantora transpõe bastante este sentimento terceiro-mundista de caos organizado indiano.

A mistura de gêneros, indo do Hip Hop à Psicodelia, do Funk ao Trap, muitas vezes dentro de uma mesma faixa sempre foram uma constante na carreira da cantora mas ganham ares ainda mais apocalípticos e divertidos em Matangi, seu quarto disco. A abertura sampleada de uma fita de meditação visto em Karmagedon é só um pequeno aperitivo da sopa cósmica que nos joga diretamente para a sinestesia que é a faixa-título. Cortes secos de voz com percussões nem um pouco europeias enquanto a cantora se refere a diferentes partes do mundo em versos quase claustrofóbicos. O batidão que figuras da música eletrônica como Diplo adoram, surgem em Only 1 U e Warriors, esta que é uma tremenda viagem sonora com a mesma precisão de inclusão de texturas sonoras do último Kanye West.

A frase escutada na faixa anterior “we are permanent in a trance” nunca pareceu tão apropriada para um disco extremamente volumoso, cheio de excessos, cheiros e cores diferentes, sinestesia que só poderia ser apreciada na Índia. Por isso que no meio do disco, quando a cantora escolhe colocar a baladinha Come Walk With Me, ela acerta. Os ânimos são dissipados, a calma volta como numa meditação até que um sintetizador frenético não nos deixa esquecer que somos todos do terceiro mundo. E são nestas faixas que temos o melhor do suco psicodélico fornecido por M.I.A, Boom Skit é excelente, um Hip Hop extremamente preciso, e Bring the Noize é ofegante, como se estivessemos fugindo de um monstro, progressiva e cheia de transições

A mistura de culturas vista aqui, como se todas as influências periféricas da música fossem unidas em um produto só, é o que conceitua Matangi. Longe de soar tosco como alguns samples gringos que escutamos e sendo ao mesmo tempo acessível para os estrangeiros pirarem com o som apreciado frequentemente em cidades como São Paulo, Luanda ou Bombaim, em suas mais diferentes formas, nos levam a crer que cantora consegue finalmente transformar as suas influências em realidade no disco.

Surpreendentemente, surgem duas faixas produzidas pelo novo nome do R&B, The Weeknd e que são incríveis apesar de serem tão “ocidentais”. Exodus é intimista como toda a obra do produtor e tem cheiro de ser single em breve, apesar de fugir tanto do foco da obra. Sexy e letárgica, permite M.I.A desacelerar na medida certa enquanto o encerramento, Sexodus é praticamente a mesma faixa anterior só que ao mesmo tempo diferente nos pequenos detalhes, soando ainda mais sensual apesar de ter praticamente os mesmos versos. A transição em uma percussão feita a partir de tambores no meio, fazem desta uma das melhores músicas do disco.

Matangi abraça diferentes culturas, estilos musicais e os transforma em uma grande festa. Mais agitado e produzido que os momentos anteriores da agora quase quarentona cantora, sufocante quando precisa ser e psicodélico na medida certa é um ótimo álbum em 2013. É óbvio que alguns torceram o nariz para a intensidade e muitas vezes megalomania musical escutada aqui mas não nos devemos nos esquecer a qual mundo nós pertencemos, o terceiro, e que tanto no Brasil como em qualquer outro país com ainda traços de subdesenvolvimento, o que não falta são pessoas se locomovendo, loucamente de um lado pra outro, algo que M.I.A faz exemplarmente mas com sua música.

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BOM PARA QUEM OUVE: Buraka Som Sistema, Major Lazer, Diplo
ARTISTA: M.I.A.
MARCADORES: Eletrônico, Hip Hop, Ouça

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.