Resenhas

Mac McCaughan – Non-Believers

Disco solo do guitarrista acerta ao propor ode à juventude e à dúvida

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Ano: 2015
Selo: Merge Records, Balaclava Records
# Faixas: 10
Estilos: Indie Rock, Lo-Fi
Nota: 4.0
Produção: Mac McCaughan

Em outra ocasião, já dissemos que trabalhos solo são a melhor forma de se entender totalmente um músico. Quando escutamos a obra deste mesmo artista dentro de uma banda, ouvimos suas ideias misturadas às de outras pessoas, portanto o resultado é algo bastante complexo. Entretanto, um trabalho solo é algo bastante direto. Toda a ideia de se separar de um grupo é voltada a dar voz ao seu universo particular, e é dessa noção que Non-Believers, disco solo de Mac McCaughan, se apropria com força, tendo como objetivo mostrar o guitarrista da banda Superchunk. À medida que escutamos o disco, podemos perceber que o músico em questão não é apenas formado de ideias, composições e conhecimentos musicais, mas também de sonhos, memórias e pensamentos. É um disco bastante pessoal, que nos proporciona um mapa muito bem detalhado da humanidade de Mac McCaughan.

Um tema bastante explorado em suas composições de é a dúvida. Ao comentar seu disco, o guitarrista explicou que a ideia era explorar uma natureza da dúvida do mesmo tipo quando “você tem 16 anos e um carro, mas não sabe para onde ir” ou “ter um teclado e não saber o que tocar”. A obra mostra que essas indagações sempre estiveram presente em sua vida, e talvez daí venha a inspiração por sonoridades dos anos 1980 e também algumas reminiscências dos 90. Um ótimo exemplo é a faixa Barely There, na qual o elemento da dúvida vem expresso tanto pelas letras (“…we wonder what would be revealed/and what dream would drown”), como pelo instrumental – que parece lembrar The Smiths dos anos 80, porém com timbres de violão, bateria e guitarras bastante nostalgicos (anos 90).

Mac McCaughan deixa claro ao explicar essa autobiografia que a nostalgia não é o foco do trabalho e que tentar transmitir sentimentos de quando você tem algo muito importante a decidir. Ele dá como exemplo “o momento em que você já cresceu e tem que decidir se você vai se juntar ao mainstream e se isso irá ocorrer de fato”. Longe de ser uma ode ao movimento independente, o guitarrista usa este exemplo para mostrar que crescer não significa que as dúvidas se encerram. Na verdade, elas só aumentam. Os reverbs harmonizantes e confortáveis de Lost Again, o ar drum machine sintético de Wet Leaves e o ar juvenil e livre de Our Way Free apenas reenforçam os argumentos de McCaughan, produzindo uma obra bastante sólida no que diz respeito a sua identidade musical e à mensagem que se deseja transmitir.

Em um excelente trabalho, Mac McCaughan deixa muito claro seu talento enquanto músico e compositor. Trabalhando com diferentes texturas e sensações, ele faz seu trabalho mais sinestésico até então, uma vez que nos identificamos com seu contexto e isso traz à tona nosso imaginário em contraste com o do músico.

Uma caixa de memórias aberta para ser explorada por qualquer ser humano cheio de incertezas e dúvidas.

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BOM PARA QUEM OUVE: Pixies, The War On Drugs, Yuck
ARTISTA: Mac McCaughan
MARCADORES: Indie Rock, Lo-Fi, Ouça

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.