Resenhas

Macaco Bong – Macaco Bong

Quarto disco da banda é uma experiência intensa dentro de um grande emaranhado de sonhos

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Ano: 2016
Selo: Sinewave/+Instrumental
# Faixas: 8
Estilos: Post-Rock, Rock Experimental, Instrumental
Duração: 41:07
Nota: 4.0
Produção: Bruno Kayapy

A música em si é um negócio extremamente subjetivo, ainda mais quando ela é desprovida de uma letra. Com um título apenas de guia para interpretações, a música apenas instrumental traz consigo intensa relação com o imaginário de seu criador e do ouvinte e, assim, é difícil imaginar interpretações semelhantes para este tipo de composição. Macaco Bong é um dos nomes brasileiro que mais despertou este tipo de sensação, por meio de uma discografia sólida de registros instrumentais os quais produziam uma questão ambígua: seria o delírio matéria prima destas obras ou o fruto desta experiência? Seja como for, o conjunto de Cuiabá é uma referência extrema do experimentalismo e o anúncio de seu quarto disco nos fez pensar ansiosamente sobre como a banda iria trazer novidades após o lançamento de uma porrada como Macumba Afrocimética. A resposta veio curta e grossa, jogando nossos pensamentos no lixo e cedendo espaço para uma das maiores viagens que Bong já proporcionou.

Macaco Bong é auto-intitulado por uma razão: traz consigo a essência do grupo com a inventiva produção de Bruno Kayapy. Sua capa já anuncia que a viagem dentro deste álbum é extremamente diversa, com camadas bem heterogêneas e colagens sonoras das mais diferentes naturezas. Cada faixa traduz uma ambientação única, portanto o disco pode ser encarado como diversos sonhos reunidos sobre uma mesma mente. Mas, ao mesmo tempo, os arranjos bem pensados e os timbres bem escolhidos trazem justamente a ideia contrária: de que estamos na verdade em um mesmo sonho, extremamente intenso, com episódios sucessivos e que, de certa forma, se interpenetram. É quase um organismo vivo, em que cada faixa interfere na percepção de outra, mesmo que tragam propostas (aparentemente) tão distintas. A subjetividade é grande parceira do trabalho do grupo e com este disco as coisas não poderiam ser diferentes.

De forma súbita, tal qual um sonho, Lurdz abre o disco, entoando riffs progressivos, comentários reverberados de guitarra e logo depois alçando vôos plenos e hipnóticos com esses mesmo reverbs. Bejim Da Nega Flor traz nuances mais suaves, porém fortes, trazendo aquele tom epifânico do Post-Rock Explosions In The Sky. Chocobong traz riffs que se aproximam do Emo oriundo do centro-oeste dos Estados Unidos, mas ao mesmo tempo remete a psicodelias menos óbvias como do grupo Mahmed. Baião De Stoner nos tira um pouco da leveza, trazendo percussões brutas e harmonias mais tensas, tudo dentro deste escopo alienante e caótico.

Saci Caraquente acelera o nosso vôo, trazendo um tom misterioso comum às aberturas da série Star Trek aliado a uma sonoridade sessentista. Carne Louca, por sua vez, deixa as coisas mais intensas e quentes, colocando em evidência que este sonho tem seus momentos de pesadelos por meio de guitarras graves e uma bateria pesada. Distraídos Venceremos é a epítome do Punk depressivo, trazendo um carga bem densa ao disco. Por fim, Macaco conclui o sonho-delírio de uma maneira igualmente intensa, explorando mais o som ambiente e escrachado do estúdio, quase como um mantra satânico e desorientador.

O grande diferencial do disco em relação ao resto da obra de Macaco Bong é sua intensidade. Seja traçando diversas interpretações, tentando decifrar referências ou apenas apreciando disco (ação nada passiva), temos mais exemplo da criatividade destes músicos, explorando o máximo possível de cada paisagem sonora de construíram. Um fantástico experimento cuja qualidade se revela na lacuna que o grupo deixa no disco para completarmos com nossas experiências, tornando a audição subjetiva e particular. Um vôo cada vez mais alto e, ao mesmo, profundo.

(Macaco Bong em uma faixa: Macaco)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.