Resenhas

Madeline Kenney – Sucker’s Lunch

Confessional e cativante, terceiro disco da californiana explora o lado menos fantasioso do amor

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Ano: 2020
Selo: Carpark Records
# Faixas: 10
Estilos: Dream Pop, Indie Rock, Folk
Duração: 36'
Produção: Wye Oak e Madeline Kenney

O amor talvez seja um dos temas mais universais e antigos da música, especificamente o processo de se apaixonar. A californiana Madeline Kenney não foge dessa influência universal e cede bom espaço de sua discografia para explorar todas as vicissitudes possíveis deste intenso momento. Apesar de uma carreira relativamente curta, seus dois lançamentos constroem diferentes momentos e faces a respeito do que o amor representa – seja de uma forma mais agressiva em sua estreia Night Night At The First Landing (2017), ou ressaltando um lado mais intimista e suave em Perfect Shapes (2018).

Madeline tem um talento de nos mostrar o que não é tão óbvio ou estereotipado nessas emoções tão comuns, como uma arqueóloga que escava por histórias e reminiscências de grandes acontecimentos. E são justamente essas reminiscências tão sutis que guiam seu trabalho. Agora, com o lançamento de seu terceiro disco, a artista já tem uma base sólida o suficiente para encarar um dos processos mais intensos da investigação pelo sentimento amoroso.

Sucker’s Lunch é sobre se apaixonar, mas certamente não tem a ver com aquela sensação de borboletas no estômago. Seria mais preciso transformar essa analogia em facas no estômago. Este é um disco que traz o lado menos fantasioso do amor, um lado mais cru e que procura enxergar, neste realismo duro, uma forma de compartilhar experiências com outras pessoas. No texto explicativo do disco, disponível no Bandcamp oficial da artista, ela diz que o processo de compor as letras foi bastante difícil, mas que, ao final, percebera que tudo aquilo sobre o que ela escrevia era compartilhado, de uma forma ou outra, por seus amigos. O disco reverbera cumplicidade e soa como uma conversa muito sincera com uma amiga próxima. E por mais que estejamos falando de um “apaixonar-se” insuportável, ele só não o é, porque temos a mão de Madeline para segurar.

Musicalmente, o projeto mescla diferentes momentos de sua obra. As texturas aqui selecionadas vão diretamente de encontro às influências Ambient de seu segundo disco, porém sob uma aura um pouco mais Dream Pop (nomes como Slowdive ou Lush podem surgir na nossa cabeça as escutar algumas faixas). Aquela agressividade do primeiro álbum retorna, principalmente nos riffs simples e repletos de energia, evocando o incômodo e a angústia para a superfície da pele. Essas misturas são quase como uma representação sinestésica daquilo que Madeline quer nos comunicar por meio de suas letras. Da realidade do material amoroso e de como as coisas nunca são só isso ou aquilo. É angústia e conforto, ao mesmo tempo.

“Sugar Sweat” dá o tom inicial do disco, em um misto de balada Indie com camadas e camadas de instrumentação, além de pequenos detalhes divertidos de investigar. “Jenny”, por sua vez, traz o Dream Pop típico e brando dos anos 90, sustentado por sintetizadores hipnóticos, como se estivéssemos no transe do amor. Já “Sucker” parte do lado mais melancólico e angustiante de se apaixonar, construído sobre as dúvidas que cercam a resposta da outra pessoa. “Be That Man” talvez deixe o ouvinte ainda mais angustiado, mas a voz suave de Madeline é o fio que não nos deixa desistir e nos faz encarar todo esse dilúvio emocional. O disco termina com a pontual e decisiva “Sweet Coffee”, um lamento profundo feito com um piano e um instrumental frágil, revelando as fragilidades e o cansaço da jornada.

Ao explicar o disco, Madeline fala sobre como não está interessada na parte aparente das coisas. E de fato, nada aqui se limita à superfície. Por mais difícil que seja, as canções de Sucker’s Lunch nos mostram como é melhor sair arrebatado deste encontro emocional, do que apenas em um nível aparente e superficial. Assim, a artista nos entrega um disco altamente confessional e que nos pede coragem para enfrentá-lo. Madeline cria aqui um dos pontos mais tocantes de sua carreira. Um disco para chorar, remoer e, eventualmente, se apaixonar por tudo que ouvimos durante sua reprodução.

(Sucker’s Lunch em uma faixa: “Sugar Sweat”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.