Resenhas

Mahmed – Sobre A Vida Em Comunidade

Primeiro disco dos potiguares traz músicas instrumentais inspiradas que fazem qualquer pessoa meditar e refletir sobre si mesmo

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Ano: 2015
Selo: Balaclava Records
# Faixas: 9
Estilos: Instrumental, Post-Rock
Duração: 38:30
Nota: 4.5
Produção: Mahmed

Lançado há quase dois anos, Domínio das Águas e dos Céus permanece como uma das estreias mais sinceras, serenas e universais da música brasileira nos últimos tempos. O EP teve ao seu favor a curta duração de seus treze minutos para permanecer inerte em nosso consciente – que, ao mesmo tempo, se manteve faminto por novas navegações e voos potiguares do grupo Mahmed. No entanto, se o quarteto era uma “quase-banda com algumas ideias soltas na cabeça” em seu pequeno relato inicial, o seu primeiro álbum soa muito mais uniforme, bem pensado e de igual capacidade meditativa.

Em tempos cada vez mais conturbados de economia e política, Sobre a Vida em Comunidade é um discurso pronto, de poucas palavras e com capacidade de abstração subjetiva. O título talvez diga mais sobre a obra do que ela poderia pensar, no entanto as nove faixas do álbum se interligam e grudam-se umas às outras com vontade de dizer através de seus instrumentos: “Calma. Pense e respire”. A comunidade obriga a vivência heterôgena e cooperativa, ensinamentos que muitas vezes nos esquecemos na hora de “tentar mudar o mundo”. Tal sensação é explicita na capa do disco, feita pelo incrível artista Flávio Grão e presente em uma de suas obras, A Mitologia do Descompasso, que nos mostra o abismo de nossas relações através de suas imagens .

A união dessas formas de expressão pela audição e visão se consolida sem palavras na límpida e velada guitarra que ecoa sem distorção ao longo de todo o trabalho e o conduz com maestria. Ela caminha de forma sinuosa por riffs, acordes e solos que deixam a sensação de ouvir Mahmed extremamente leve e calma. Dentro da música instrumental, a busca pela viagem interior que o grupo do Rio Grande do Norte proporciona não é muito vista por aí, fugindo dos próprios preconceitos que o gênero sofre.

A misteriosa abertura AaaaAAAaAaAaA é de uma beleza ímpar e emocionante, tamanho o arrepio de sua frase guitarrística inicial. Lá pelo seu meio, surge uma voz de fundo, quase um sussuro onírico que começa o transporte do ouvinte para outro lugar. Bastaria seu término para entendermos a evolução que os últimos dois anos trouxe ao grupo, mas o resto do trabalho mostra muita dedição com a sua produção feita nos mínimos detalhes para que a viagem seja permanente e interessante. Medo e Delírio e Mantra Tensão seguem a abertura em grau de simplicidade e, ao mesmo tempo, profundidade: As pequenas frases de cordas de ambas mostram como uma ideia pode se tornar algo muito maior quando não se está sozinho.

A continuidade, logo, se mostra um deleite para quem já conhecia o grupo e principalmente para os desconhecidos. Recreio dos Deuses é perfeita para o ócio e para aqueles poucos momentos no dia que você consegue realmente respirar, enquanto Quando os Olhos se Fecham é o Forró calminho para dançar abraçado com o semelhante e, talvez, se esquecer da vida. Shuva, o primeiro single, é provavelmente a faixa mais direta e giroscópica do disco: some e desaparece como o fenômeno natural e nos deixa flutando diante de sua psicodelia.

Duas faixas, no entanto, mostram lados mais ousados ao grupo. Ian Trip não poderia ser outra coisa se não um Trip Hop feito com scratches, um beat acústico preciso e outros instrumentos que voam ao seu redor, sendo pura lisergia de sete minutos. Já Vale das rrRosas é provavelmente a única música com uma narrativa por trás. Com um sample de uma história infantil que fala sobre o menino triste que trazia na verdade a felicidade para os demais, a faixa segue à risca a sua temática com uma introdução melancólica que culmina em um desfecho arrebatador. É provavelmente a canção que diz mais sobre nós mesmos em todo disco. Poderia ser acompanhamento do filme Na Natureza Selvagem.

No entanto, o verdadeiro poder da música de Mahmed vem da atenção que o ouvinte se vê obrigado a prestar: sem palavras, o ouvir e o sentir são muito mais necessários que a compreensão. A música instrumental, que pode ser sempre carregada de melancolia e tensão, se mostra mais próxima da influência praiana dos riffs de guitarra de John Frusciante e todo o groove por trás de Red Hot Chilli Peppers, o que revela que, como grupo, o quarteto se entende como poucos e que sem a colaboração não seria nada. Ao misturar sonoridades regionais e típicas do Brasil (escaleta e sanfona), o trabalho não poderia ser mais adequado ao nosso país e para ser ouvido no caos urbano. Logo, Sobre a Vida em Comunidade é o disco que os potiguares precisavam para se espalharem por outras regiões com mais intensidade e, agora, ensinar seus mantras sábios antes que decisões afobadas sejam tomadas por ai. No entanto, enquanto a caravana não chega, esse trabalho pode ser a solução para as suas aflições.

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BOM PARA QUEM OUVE: HAB, Hurtmold, The Tape Disaster
ARTISTA: Mahmed

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.