Resenhas

Marcelo Perdido – Inverno

Compositor traz uma percepção individual e poética sobre o clima frio

2,200 total views, no views today

Ano: 2015
Selo: Independente
# Faixas: 10
Estilos: Indie Folk, Singer-Songwriter, Chamber Folk
Duração: 37:35
Nota: 3.5
Produção: João Erbetta

O inverno e o Folk andam juntos há muito tempo. Há algo no clima frio que atrai os entusiastas deste gênero a sintetizar todas suas emoções e expressá-las de formas cada vez mais diferentes. Dentro deste ambiente frio, Marcelo Perdido não é uma exceção e em seu novo disco, fica clara a influência que o clima tem em sua sonoridade. Porém, o músico parece não se deixar levar por alguns estereótipos do gênero e apresenta aqui a sua interpretação pessoal do inverno e, como dito em uma entrevista, Marcelo acredita em uma visão mais pessoal e melancólica do frio, como se a hibernação servisse de reflexão. A partir disto, somos sensibilizados a entrar no universo do compositor que nos provoca sentimentos dissonantes, como se ele quisesse nos mostrar que seu inverno não é algo tão confortável e fofo assim.

Inverno começa com um trecho da famosa propaganda das Casas Pernanbucanas e, logo depois, somos jogados em acordes dissonantes que nos envolvem em uma tensão, tal como o aspecto cortante do frio. O curioso é que no refrão desta mesma faixa, as tensões somem e acordes abertos ficam em primeiro plano nos aliviando e acalmando. Esta faixa que dá o nome ao disco revela um aspecto metonímico do trabalho, pois a intenção de Marcelo não é nos desorientar em relação ao frio, mas tentar deixar claro para nós que antes de estarmos confortáveis e quentinhos em nossas casas, precisamos sentir a dor e o desconforto do frio. A partir disto, em outras faixas, o compositor se sente livre para explorar uma série de recursos que reforçam seu ponto de vista.

A faixa Saúde se utiliza de letras sem estruturas rítmicas e uma base que ora é mais agressiva, ora mais suave. Cidade Pequena tem belíssimos arranjos de violino, revelando um aspecto mais comum ao Folk associado ao frio. Egoísmo apresenta o que parece ser uma interpretação do famoso riff de Asa Branca, porém novamente tenso e mais melancólico. Todo Lugar brinca com cordas que parecem ser de origem japonesa e, adiante, revela-se como um modelo típico de Singer-Songwriter, à medida que Marcelo expõe com convicção letras de cunho pessoal e, até mesmo, cronista. Aliás, as letras do disco são um aspecto que muitos podem estranhar de início, mas certamente ficarão curiosos e intrigados com o significado destes arranjos poéticos.

Certamente mais tímido e acústico que em seus outros trabalhos, Marcelo nos entrega um disco bastante pessoal e com uma abordagem interessante. É um trabalho de destaque na sua curta discografia e que nos traz uma curiosidade maior por conhecer ele e suas impressões para com outros aspectos da vida. Vale a pena esperar por outras novidades suas.

2,201 total views, no views today

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.