Resenhas

Marcos Valle – Sempre

O artista completa 76 anos em pleno vigor e prova que a Bossa-Nova que produziu segue com energia renovada no que depender de seus esforços

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Ano: 2019
Selo: Far Out Recordings
# Faixas: 11
Estilos: Funk, Disco Music, Jazz Fusion, Pop
Duração: 66'
Nota: 4
Produção: Daniel Maunick, Marcos Valle

Marcos Valle não aparecia com um disco de inéditas desde 2010, quando lançou o aclamado Estática. De lá para cá, o celebrado músico carioca divulgou um projeto ao vivo em 2014 e integrou o trio formado também por Edu Lobo e Dori Caymmi, que resultou em um LP colaborativo no ano passado. A espera valeu a pena e o representante da segunda geração de bossanovistas – que expandiu absurdamente o termo ao longo de sua carreira – retornou com Sempre, uma certeira fusão de ritmos com a clara missão de fazer você dançar. O primeiro trabalho de inéditas em quase dez anos chegou, como não poderia deixar de ser, comandado por um time de músicos dos sonhos: Alex Malheiros (baixista do Azymuth), Armando Marçal (percussionista cujas colaborações viajam de Paul Simon a Chico Buarque, Jorge Ben Jor a Pat Metheny), além do trio formado por Paulinho Guitarra (guitarrista), Marcelo Martins (saxofonista) e Jesse Sadock (trompetista e parceiro musical de longa data de Valle). 

Com um baixo fenomenal pipocando em meio a guitarras à la Nile Rodgers, “Olha Quem Tá Chegando”, a faixa de abertura, já mostra a textura Disco que percorre todo o álbum. Mas mesmo assim, Sempre, em meio aos BPMs típicos das pistas, ainda encontra (muitos) espaços para incorporar momentos instrumentais que soam como jam sessions, nos quais as teclas de Valle brilham. “Odisseia” é um Acid-jazz-funk instrumental de 9 minutos cheio de riffs etéreos saindo dos sintetizadores, enquanto o piano Rhodes faz a cama econômica e precisa – pelo menos até o aguardado momento em que Valle resolve solar. Ainda há lugar para apitos e cuícas. “Minha Romã” e “Alma”, que ganharam versões instrumentais incluídas ao final do repertório, seguem a mesma linha dançante e remetem à obra de Valle durante os anos 1980, especialmente o álbum homônimo de 1983, no qual está o sucesso “Estrelar”.

Trazendo menos levadas sincopadas do que seu antecessor, Sempre flerta acentuadamente com o universo Pop. O auge desse encontro é a versão de “Aviso Aos Navegantes”, hit dos anos 1990 lançada por Lulu Santos. Embora os dois tenham trabalhado juntos em algumas ocasiões desde o início da década passada, Valle nunca havia regravado uma composição do conterrâneo carioca e, aqui, adicionou pimenta, velocidade e uma boa dose de virtuose ao hino dos solitários. 

Sempre que procuramos sobre Marcos Valle por aí, é comum encontrarmos as mais variadas definições para o seu som, como Jazz Funk, Bossa-Nova, Boogie, Funk Lounge, entre outras. Uma das mais criativas e apropriadas talvez seja Cosmic Samba, porque é o que ele faz: viaja para lugares distantes, mas, de alguma maneira, é capaz de preservar uma brasilidade inconfundível. Aqui, ele segue fiel ao groove de clássicos como Previsão do Tempo (1973), mas se debruça em novas sonoridades e andamentos. “O que é novo foi chegando / É passado, não é mais / Foi ficando para trás / O que era não é mais”, ele canta na faixa-título. 

 “Samba de Verão”, regravada incontáveis vezes e responsável por colocar Valle no mapa – inclusive e fundamentalmente fora do Brasil –, foi lançada há mais de 50 anos. Ao longo de sua extensa discografia, o que não faltam são exemplos de excelência e experimentação, os quais o credenciaram como um dos nomes mais respeitados da música brasileira ao redor do mundo. A versatilidade é tanta e produziu sons tão atemporais que de standard-mundial-da Bossa-Nova, hoje, ele faz a cabeça de gente como Tyler, The Creator, Madlib e Kanye West. Marcos Valle completa 76 anos em setembro, e, felizmente, Sempre é um claro sinal de que a força criativa mais inquieta que a Bossa-Nova produziu segue com energia renovada. Um privilégio. 

(Sempre em uma faixa: “Odisseia”)

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ARTISTA: Marcos Valle
MARCADORES: Disco, Funk, Jazz Fusion, Pop