Resenhas

Adriana Calcanhotto – Margem

O último disco da trilogia do mar que começou em 1998, com o LP Maritmo, retoma o contraste entre o ancestral e o futurismo no Pop Experimental apaixonado da artista

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Ano: 2019
Selo: Sony Music
# Faixas: 9
Estilos: MPB, Samba, Art Pop, Experimental Pop
Duração: 27'
Nota: 4

Em 1996, em entrevista à revista Playboy, Maria Bethânia, quando perguntada sobre o pensava de Adriana Calcanhotto, disse o seguinte: “Calcanhotto é uma compositora muito boa. Uma menina que tem um trabalho diferenciado, especial. Nobre e com muito humor, sem perder o pé no popular. Faz as performances mais loucas, as poesias mais absurdas, os discos mais complicados. As gravadoras devem se arrepiar todas quando ela entra em estúdio”. Depois dos mais de 20 anos que se passaram desde essa entrevista, a realidade é que as gravadoras praticamente sucumbiram. Calcanhotto, no entanto, transferiu este arrepio – ao qual Bethânia se refere – a quem se aventurar a um mergulho em seu universo. A melhor prova disso é o seu novo disco Margem.

O primeiro espasmo que tivemos dele foi o lançamento da faixa “Ogunté”, com clipe de Murilo Alvesso. Nele, a cantora aparece como uma divindade aquática, mas vestida de plástico de saco de lixo. A mesma contraposição está na poderosa capa do álbum em que Adriana está dentro da água, mas cercada de garrafas PET. Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, ela revelou que seria impossível continuar falando de mar sem abordar a poluição e a desgraça que, aos poucos, estamos permitindo que ocorra com ele.

Em Maritmo (1998), LP que, há mais de 20 anos, estreou a trilogia que culmina em Margem, o mar vinha como imagem das nossas flutuações, mudanças voláteis interiores, do nosso desejo de vida. No segundo capítulo, lançado dez anos depois do primeiro, entra em cena a Maré (2008) – tudo o que não controlamos, tudo o que vai e vem sem respeitar o nosso desejo. O mais recente registro de Adriana, no entanto, parece pontear tanto conceitual quanto sonoramente esses dois ambientes em um trabalho, conciso, direto e emocionante.

Quem imaginou, depois de ouvir “Ogunté”, que o disco iria dedicar-se totalmente à musicalidade eletrônica – bastante explorada em Maritmo – enganou-se. Margem traz consigo em equilíbrio inteligente entre as suas esferas acústicas e robóticas. “Lá lá lá” é um ótimo exemplo desse mix, inclusive. Em “Meu Bonde”, ela flerta com um Funk carioca remodelado, enquanto que na faixa que dá título ao disco, uma espécie de Bossa se revela. Suas referências chegam delicadas e precisas de modo que, no final, o disco tem coesão. É Pop, é Experimental, é MPB, é Funk, é Samba e não é uma confusão.

Para além da musicalidade bem amarrada, Adriana dá passos em seu imaginário poético. O mar, que sempre a acompanhou e que, segundo ela, continuará sendo fonte de inspiração, aparece torto, feio, sujo. As letras falam de faltas, de um passado mal resolvido, de um futuro incerto… Propõem também, principalmente em “Margem”, um esvaziamento do Eu. “Eu, menos meu nome / Menos meu reino / Menos meu senso / Menos meu ego / Menos meus credos / Menos meu ermo / Querendo o teu beijo” – curioso pensar que, depois desse processo, ainda sobra o desejo. Como se ele fosse o único demarcador verdadeiro da existência da nossa alma.

De modo geral, Margem é um disco que nos obriga a concordar com Maria Bethânia. Adriana Calcanhotto é um dos expoentes mais interessantes e inteligentes do Pop brasileiro. Suas letras seguem sábias e sentimentais, seu fascínio pelo mar chega atualizado – sem repetições inadequadas –, sua voz segue única, e, acima de tudo, sua música continua apostando em caminhos que estão mais ligados com os impulsos do coração do que com o desespero pelo topo das paradas.

(Margem em uma faixa: Dessa Vez)

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