Maria Beraldo – Cavala

Disco solo de musicista explora de forma introspectiva o significado de ser uma mulher lésbica /

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Ano: 2018
Selo: Risco
# Faixas: 10
Estilos: Experimental, Avant Pop, Eletrônica
Duração: 24:00
Nota: 4.5
Produção: Tó Brandileone e Maria Beraldo

A autoinvestigação é uma das armas mais poderosas da qual um artista dispõe para criar e, às vezes, ela pode revelar universos complexos e labirínticos dentro de si. Por isso, tal processo requer do indivíduo coragem e até certa resistência para remoer e analisar determinados conteúdos.

Munida com uma arsenal de referências, a clarinetista e compositora Maria Beraldo resolveu encarar esta missão em seu disco de estreia, porém é importante deixar claro que ela não é uma novata da música, tendo acompanhndo nomes de peso como Arrigo Barnabé, Elza Soares e Quartabê. Sua trajetória parece ter a preparado para encarar este processo de uma forma magistral, e o resultado disso é um dos discos mais profundos e humanos de 2018, e que certamente deixa sua marca na música brasileira.

CAVALA não esconde sua real intenção de investigar a sexualidade e os gêneros em um mundo cada vez mais hermético. Sua sonoridade é bastante diversa e a dificuldade de nomeá-la com rótulos específicos limitaria suas possibilidades, já que parte da apreciação do disco vem justamente do mistério costurado entre os arranjos e timbres.

Além disso, parte do experimentalismo escutado vem do anseio de Maria Beraldo em compartilhar suas reflexões sobre o significado de ser uma mulher lésbica no mundo contemporâneo. Como este é um percurso que nem todo ouvinte pode ter sentido na pele, nós podemos apenas nos comportar como público enquanto ela nos surpreende a cada música. A audição deste registro é como a observação de uma performance na qual o sentido é conduzido apenas pelo artista.

O disco começa, literalmente, Tenso mostrando que, apesar do orgulho em contar sua história, isso não diminui em nada a árdua caminhada que as minorias LGBTQI+ vivem no Brasil. Amor Verdade, mais branda, é um monólogo que protagoniza o momento em que sua sexualidade vem à tona para seus pais, sem pudores ou tratamentos formais: apenas a verdade. Maria conta a relação e importância que as mulheres de sua família tiveram para que ela pudesse contar sua história, revelando tragédias cantadas em tom forte.

A canção Eu Te Amo, composta por Tom Jobim e Chico Buarque, ganha uma roupagem etérea ao ser interpretada com mansuetude e dor. Helena mostra o talento da musicista no clarinete em uma composição que se sustenta sem percussão, mas causa igual impacto dançante no ouvinte. Por fim, Gatas Sapatas é quase um cântico entoados por bruxas e com um apelo Pop inconfundível.

Cavala é um disco pessoal, ao mesmo tempo que um grito em direção à multidão. O passado musical de Maria Beraldo a preparou para encarar uma narrativa intensa e que não se prende a estéticas estereotipadas. Dessa forma, é justamente por não conseguir encaixar o disco dentro de qualquer gênero que ele se torna ainda mais introspectivo. É a narrativa que a compositora guarda com tanto afinco e carinho, mas que entende o peso de cada palavra cantada.

(Cavala em uma faixa: Amor Verdade)

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BOM PARA QUEM OUVE: Lari Pádua, Letrux, Björk
ARTISTA: Maria Beraldo

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.