Resenhas

Maria Moles – For Leolanda

Entre a expansão e a introspecção, percussionista mescla vivências particulares e sonoridades transcendentais, subvertendo o que se espera de um disco de ambient music

 202 total views

Ano: 2022
Selo: Room40
# Faixas: 4
Estilos: Experimental, Ambient
Duração: 36'
Produção: Maria Moles

Quando perguntam a uma criança qual instrumento ela gostaria de tocar, uma resposta costuma ser bastante comum entre os pequenos: bateria. Para o terror dos pais, a bateria é um instrumento em que a energia é diretamente proporcional à intensidade do som feito e, dessa maneira, ela é comumente associada ao barulho e à rigidez dos compassos rítmicos. Uma bateria marcada é o centro de orientação do ouvinte, pois a partir das sequências de bumbo e caixa compreendemos em que momento da música nós estamos – mesmo nos andamentos quebrados do rock progressivo e math rock. A bateria, assim, ganha uma ideia popular de que ela deve demarcar e conduzir o resto da banda. Entretanto, há sentidos menos convencionais que tornam este instrumento uma ferramenta que caminha no sentido contrário deste mencionado anteriormente. A bateria e os instrumentos de percussão são usados por diferentes grupos étnicos em uma função que vai além da demarcação precisa. O instrumento em questão não é visto como rígido e suas particularidades sonoras são usadas para expandir as perspectivas sonoras. É nesta característica que a baterista e compositora Maria Moles mira durante seus experimentos sonoros.

A bateria trouxe a Maria uma linguagem muito peculiar durante sua curta e rica carreira. Ela já tocou e compôs com diversos artistas do meio experimental, mas também se aproximou de um formato mais erudito quando participou da Australian Art Orchestra. Com uma abordagem única, aos poucos começou a delinear seu próprio universo sonoro – no qual a bateria estava no centro em todos os instantes. O flerte com a Ambient Music em seu trabalho de estreia, Not One, Not Zero (2017), deixa evidente como ela busca novas maneiras de utilizar a percussão em um sentido mais transcendental. É curioso que a Ambient Music, tradicionalmente pautada em texturas mais etéreas, encontre em um instrumento tão popular uma essência própria para atingir este sentimento menospPop e mais experimental. Assim, esta linguagem já está no repertório de Maria há cinco anos e seu novo EP procura mostrar, de maneira similar, os limites que este instrumentos pode alcançar.

For Leolanda traz uma inspiração direta da música Kulintang – tradição de bandas de percussão das Filipinas. Nessa referência, Maria encontra sons particulares em instrumentos de percussão que rendem experimentações autênticas com sintetizadores e loops de fita cassete. O fato de parte da estética ter sido inspirada em sonoridades sagradas não deixa de proporcionar um aspecto muito íntimo para o disco – como se o objeto de celebração/exaltação em questão fosse sua própria vivência. Não em um sentido narcísico, mas como via direta para seu coração e onde estão localizadas todas as suas emoções. Este caminho direto tem ainda mais sentido quando nos voltamos para o nome do trabalho: uma homenagem para sua mãe. É curioso como este disco busca uma linguagem transcendental para falar do interno e cotidiano – mesmo que esta fala se dê através de timbres e sonoridades, e não palavras.

Há quatro momentos no disco. O primeiro, “River Bend”, pavimenta uma estrada com texturas mansas e constantes, utilizando a bateria como instrumento que sussurra detalhes percussivos ao longo deste caminho. Em seguida, temos “In Pan-as”, faixa de quase 15 minutos que traz uma referência rítmica retirada do disco “Muranao Kakolintang – Philippine Gong Music” e que narra um evento no qual sua mãe, durante uma conversa cotidiano, pediu para que, quando morresse, suas cinzas fossem jogadas no rio Pan-as. O terceiro momento é “Manaska”, peça musical que se inspira nas sonoridades de uma tribo de mesmo nome situada no Vale de Compostela. Maria conta em seu Bandcamp que esta faixa marca uma inversão do seu processo de composição, no qual, normalmente, ela começa com a bateria e vai colocando sintetizadores em seguida – na peça em questão o centro foram os acordes de sintetizador e os comentários foram os acessórios percussivos. Por fim, “Distant Hills” traz todo o protagonismo para os gongos da música Kulintang, encerrando o curto e profundo trabalho de maneira simples, porém evidenciando a importância destas percussões na constituição de seu trabalho.

For Leolanda constrói uma relação inversa ao que se supõe de um disco padrão de ambient music. Quanto mais expansiva a música, mais de dentro ela parece falar. Quanto mais distante Maria Moles procura encontrar referências para construir seu universo sonoro, mais introspectiva ela se permite ser. As histórias sobre sua mãe (a inspiração por trás do nome do disco) e as recordações de viagens buscando novos sons são o que fazem deste curto EP uma espécie de diário em forma de “pílula ambiente”. Não é preciso muito tempo para que Maria te cative com sua percussão e deixe o ouvinte completamente ausente de compassos rígidos para se localizar. Se perder neste trabalho é parte fundamental de sua apreciação.

(For Leolanda em uma faixa: “In Pan-as”)

 203 total views

ARTISTA: Maria Moles

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.