Uma atmosfera que se expande a partir de poucos elementos. Ao escutarmos Luster, a informação de que Maria Somerville é formada em engenharia de som não surpreende. Pelo contrário, faz sentido que a obra tenha sido desenvolvida por uma artista que pensa a música também a partir dessa perspectiva.
Para dar contorno à sua voz, ela trabalha cada timbre com perceptível delicadeza. Eles surgem, se alongam e ecoam. Entre cada verso e cada ouvido, há muito som, ainda que reverbere a partir de apenas dois ou três instrumentos. Nessa mise en scène, é construída uma sonoridade familiar para quem acompanha o dream pop, mas que revela-se cheia de personalidade.
Isso porque Maria vem de uma família com tradição na canção folclórica irlandesa. Criada no interior do seu país, antes de se mudar para Dublin, a artista leva consigo esse legado mesmo quando passeia pelo shoegaze. O resultado, expresso por seu vocal abafado nas músicas, é um indie sussurrante e hipnótico.
“Halo” desenvolve essas características de forma mística e espectral. “Projections”, por sua vez, apresenta uma guitarra mais demarcada e percussão — algo nem sempre presente em suas criações. Já “Garden” chega com mais força e sonoridade mais nítida do que as demais, se mostrando tanto como a mais convencional do disco, mas também a que carrega melhor a identidade da artista.
Isso porque Luster se constrói nesse espaço negativo, no som que se arrasta e no silêncio entre as notas, tanto quanto naquilo que se revela. Está na dinâmica da melodia, mas também no estranhamento de algumas afinações. Da mesma forma, é quando se dá a liberdade de fazer música como os outros fazem que nos relembra a força criativa em Maria Somerville — uma artista com uma maneira muito particular de pensar suas criações sonoras, mesmo quando elas resultam em um dream pop que julgamos já conhecer.
(Luster em uma faixa: “Projections”)
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