Resenhas

Marianne Faithful – She Walks In Beauty

Lendária artista presta tributo à poesia inglesa em meio à atmosfera introspectiva da Ambient Music

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Selo: Panta Rei/BMG
# Faixas: 11
Estilos: Ambient Music, Spoken Word
Duração: 46'
Produção: Warren Ellis

Marianne Faithfull é uma artista que fez do tempo sua matéria-prima de transformação. Desde a década de 1960, a atriz e compositora britânica tem produzido discos que acompanham um processo de mutação constante. Seu início foi marcado com nuances de um Folk frágil, na linha de Joni Mitchell. Nesta época, o movimento Swinging London efervescia pelas ruas da Inglaterra, influenciando Marianne a dar seus primeiros passos em direção às mudanças.

O contato com artistas como Mick Jagger, David Bowie e Beatles resultou em um flerte com o Rock e os timbres de sintetizadores que emergiram na década de 1970. É desta época que nasce um de seus registros mais sólidos e efluentes, Broken English (1979). O Pop ganhou o carinho da artista na virada dos 1980 para os 1990, assumindo uma postura mais popular e repleta de melodias cativantes para grandes audiências. Sua influência é tão vasta que é prometido para 2022 um longa-metragem biográfico narrando sua trajetória.

Ocupando diferentes espaços, entre diversos gêneros musicais, o que une todas estas expressões sob o domínio de Marianne sempre foi a poesia. Seja nas letras de suas músicas, ou na sua atuação em filmes como Hamlet (1969) ou Maria Antonieta, de Sofia Coppola (2006), a poesia é uma velha conhecida da artista. Em alguns trabalhos da década de 1990, Marianne dedicou parte de seu disco a declamar poesias com fundo musical, adicionando o Spoken Word à lista de caminhos pelos quais ela havia percorrido. Em seu site, conta que sua paixão pela poesia começou na escola quando, adolescente, se encantou pelos poetas ingleses em sua aula de literatura. Assim, parece apenas justo que seu novo disco seja uma espécie de tributo a estes ídolos. Um lugar onde a poesia pode ser mais protagonista e menos uma característica secundária de sua obra.

O título de She Walks In Beauty é retirado de um poema de Lord Byron, mas este é apenas um dos seis poetas escolhidos para terem seus textos lidos por Marianne. Poesias de Lord Tennyson, John Keats e Thomas Hood encontram na voz da artista um artifício potente para ser expressos. Além disso, o produtor musical Warren Ellis foi o responsável pelas trilhas instrumentais que acompanham a leitura dos textos. O terreno aqui é semeado com influências inegáveis do período de ouro da Ambient Music e este gênero é tão venerado por Marianne, que o próprio Brian Eno participa de algumas das composições do disco. Além de Eno, nomes como Nick Cave, o violoncelista Vincent Ségal e o produtor Head colaboram no registro para criar uma atmosfera única.

Mas além de uma função de tributo, o disco parece ter um papel de instrumento necessário para que Marianne processe suas experiências – e os últimos anos têm sido particularmente difíceis com ela. Marianne foi internada no ano passado por conta do COVID-19, em um quadro grave que quase a levou a óbito. Além disso, sua vida tem episódios intensos de drogas e relacionamentos abusivos que a debilitaram muito em certos momentos de sua carreira. A poesia serve ser como escape para que Marianne dê forma àquilo que viveu, seja pelas palavras de outros poetas, ou pelas texturas sonoras e amorfas da Ambient Music. É interessante ver a relação entre poesias e instrumentação, que funciona em um envolvendo o ouvinte e potencializando o significado individual de cada uma das faixas.

Apesar da poesia estar contida em toda a obra de Marianne Faithfull, neste disco fica claro como ela é uma linguagem primordial da artista. Seu tributo a diferentes poetas e a relação com a Ambient Music proporcionam ao ouvinte uma experiência que é, ao mesmo tempo, acolhedora e transformadora. Somos instigados a nos transformar porque observamos um exemplo evidente de como esta linguagem pode ser definitiva no curso da vida de uma pessoa. O título do poema de Lord Byron que dá nome ao registro não parece ter sido escolhido em vão. Neste disco, Marianne cria, a partir de suas dores e vivências, caminhos pela beleza.

(She Walks In Beauty em uma faixa: “To The Moon”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.