Resenhas

Marika Hackman – I’m Not Your Man

Cantora e compositora inglesa deixa Folk de lado e mergulha em sons noventistas

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Ano: 2017
Selo: Sub Pop
# Faixas: 13
Estilos: Folk Alternativo, Rock Alternativo, Grunge Pop
Duração: 48:47
Nota: 4.0
Produção: Charlie Andrew

Confesso a vocês que Nu-Folk/Freak Folk não é muito a minha praia. Abro exceções aqui e ali para gente realmente talentosa, com alguma referência mais clássica, seja dos mestres americanos dos anos 1960, seja dos grandes britânicos do início dos anos 1970. Fora isso, especialmente pela esquisitice meio caricata, essa gente me irrita um pouco. Dito isso, fui ouvir este segundo disco da cantora/compositora inglesa Marika Hackman com a certeza de que iria ouvir algo, no máximo, interessantezinho, um típico álbum três bananas, se muito. Pois bem, qual não foi minha surpresa ao me ver diante de um pequeno diamante bruto de mulherice pós-Grunge noventista em pleno 2017? E mais: com uma pegada cheia de atitude, de coragem, tudo num feixe de treze canções redondíssimas. Este é I’m Not Your Man, segundo trabalho da moça.

O que faz a diferença aqui é a presença de uma boa banda para acompanhar Marika, a ótima The Big Moon. É um quarteto de molecas inglesas, amigas da cantora, que oferecem um pequeno e controlado assalto sônico de guitarras e andamentos decalcados do início dos anos 1990. O resultado é a impressão de estarmos ouvindo algo que grupos como The Breeders ou Throwing Muses deixaram em alguma gaveta e jamais lançaram. O frescor é perceptível e as letras de amores, relacionamentos e aloprações casa muito bem com a moldura sonora. Não há um mero decalque de sonoridade, há uma apropriação criativa sobre o que se fazia naquela época de transição do mero Rock Alternativo americano, de matiz universitária/guitarreira para uma nova sonoridade, que seria conhecida como Grunge. O grande elo perdido nisso aí está, justamente, no que não se tornou Grunge, mas que continuou em vias paralelas, caso da sonoridade que elas expõem aqui.

A produção de Charlie Andrew, responsável pela sonoridade atual de Alt-J, mantém as meninas em 2017, com uma infusão generosíssima de Rock noventista da melhor qualidade. Tudo funciona bem e a veia de compositora de Marika surge em vários momentos. O cartão de visitas vem logo com a faixa de abertura, Boyfriend, que seria hit se vivêssemos num mundo justo. Só que I’m Not Your Man tem diversidade para oferecer: desde a pegada guitarreira, cheia de silêncios contidos e prestes a explodir de Boyfriend e a canção seguinte, Good Intentions, passando pela tristeza/frustração à meia-voz que se estabelece ao som de Gina’s World e abrindo janelas para o sol entrar, sentimento que chega com My Lover Cyndi, um chicletinho Power Pop tipicamente 90’s, que se espraia pelas caixas de som sem cerimônia.

Claro que a veia Folk original de Marika também está presente. Cigarette é o maior exemplo disso, singela e cantada limpidamente, ao violão, em meio a uma melodia solar. O contraste entre ela e a canção seguinte, Time’s Been Reckless é evidente pela presença da banda de apoio e pelos bons acordes de guitarra que permeiam o arranjo. Outro exemplo da presença Folk, mas de um modo alternativo e nada esquisitinho é a bela Apple Tree, que tem jeitão de canção tradicional e avança com uma melodia bem bonita sobre um acompanhamento de voz e guitarra, com interjeições de vocais de apoio e metais. A síntese do álbum chega na aerodinâmica Eastbound Train, praticamente perfeita como canção Pop de guitarras e talhe clássico para ser cantada por várias vozes em vários lugares.

Marika Hackman certamente mostra que está em desenvolvimento como artista e não tem qualquer problema em escolher qual a forma que sua música deverá seguir daqui em diante. Este álbum é um bom atestado de alguém que está se divertindo com as mudanças e experimentando. O êxito é evidente e a menina vai longe.

(I’m Not Your Man em uma música: Eastbound Train)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.