Resenhas

Marissa Nadler – Bury Your Name

Cantora americana solta belo EP acústico com sobras de “Strangers”

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Ano: 2016
Selo: Bella Union
# Faixas: 8
Estilos: Dream Pop, Singer-Songwriter, Folk Alternativo
Duração: 25:13
Nota: 3.5
Produção: Marissa Nadler

Estivemos aqui há alguns meses resenhando Strangers, o disco que Marissa Nadler soltaria em 2016. Falei bem, elogiei sua aura misteriosa, toda trabalhada no Goth Folk, sua antítese em relação às cantoras-fadinhas folksters que pipocavam – e pipocam – por aí e tudo mais. Não contávamos que Marissa ainda tinha bala na agulha para outro lançamento neste ano, mas ela surpreende e solta agora este bom Bury Your Name, um EP digital que surge também como K7 em edições super luxuosas de Strangers.

Estas canções foram compostas quando o repertório do álbum era selecionado, mas foram deixadas de lado. Qual é o grande trunfo por aqui? As faixas surgem com arranjos eminentemente acústicos e num clima bem intimista, uma vez que foram gravadas em sessões na sala de estar da casa da cantora em Boston, com efeitos mínimos. Isso valoriza o principal atributo de Marissa, sua voz e o entrosamento desta com o dedilhado de violão, deixando, por ora, o clima sombrio e Gótico de lado, valorizando a delicadeza Folk, que sempre esteve no subterrâneo de suas criações, mas aparecia como coadjuvante. Sendo assim, há como lançar um novo olhar sobre suas criações e enxergar muitos detalhes interessantes.

O single The Best You Ever Had mostra bem o quanto há para se ouvir por aqui. Dedilhado levíssimo, voz quase sob forma de vento frio que sopra sobre a copa das árvores e aquela paisagem de outono, árvores sem folhas, frio batendo no fim de tarde e Marissa fazendo este inventário sobre o amor que se foi, triste, lamentando como se isso fosse parte da natureza inevitável das coisas. A gravação tem especial cuidado em mesclar sua voz com multiplicações desta sob a forma de backing vocals, criando um clima de confusão, de espelho, de suava entorpecimento. É quase uma canção de ninar, se não fosse tão delicadamente triste. Bem bonito.

O ponto alto do EP, sem dúvida, é o trio final de canções, especialmente, Horsefly, que é tão bonita que chega a dar um nó na garganta. A melodia evoca algo imemorial das grandes canções douradas dos anos 1960, mas é só impressão, ficando mais evidente a doçura que Marissa é capaz de mostrar com sua voz e um dedilhado de guitarra acústica muito bem feito. Há detalhes ambientais de teclados, tão sutis quanto os mais discretos sorrisos e movimentos que tentamos observar nas pessoas que gostamos. Coisa muito linda. O fecho do disco vem com a assombrosa Pick Me Up Before I Die, praticamente uma canção para, como dizem os nossos patrícios lá na Terrinha, nos enlutarmos por alguém que partiu desta pra melhor.

Arrisco dizer que Marissa Nadler tem muito mais futuro com esta abordagem acústica radical, ainda mais esteticamente contida que o apresentado em seus álbuns regulares. Tudo aqui é belo, triste, desolado e, muitas vezes, reconfortante. Ouçam.

(Bury Your Names em uma música: Horsefly)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.