Resenhas

Marissa Nadler – Strangers

Cantora e compositora americana fala de tristeza com beleza

 2,447 total views

Ano: 2016
Selo: Sacred Bones
# Faixas: 11
Estilos: Dream Pop, Singer-Songwriter, Folk Alternativo
Duração: 45:01
Nota: 4.0
Produção: Randall Dunn

Sabem essas cantoras de Folk Alternativo que parecem fadinhas, que andam por aí com um violão na mão e flores no cabelo, pensando que estão num lapso temporal com os anos 1960? Que têm músicas sobre o sol, a primavera, os bichinhos e os elementos vivos que compõem a Mãe Gaia? Conhecem alguma? Pois bem, esqueçam, porque Marissa Nadler é outro papo, felizmente. A jovem nativa da capital norte-americana, criada na vizinha Boston e arrabaldes, é dona de um enorme talento e tem sólida carreira lá na parte de cima do planeta azul. Strangers é o seu sétimo trabalho e, junto do antecessor, July, mostra o que Marissa tem de melhor.

Em primeiro lugar, a moça canta muito bem. Tem timbre de voz conectado com os anos 1980 sem que isso soe como nostalgia. Pelo contrário, seu registro tem a leveza do ar, mas a solenidade dramática e entristecida necessária para soar como se estivesse sempre presente, uma testemunha ocular involuntária da história, que viu as coisas mais belas e as maiores atrocidades possíveis, pairando sobre alguma paisagem verde de sol poente/lua nova. Em segundo lugar: ela escapa da mesmice voz/violão do estilo com doses generosas de Dream Pop, aquela sonoridade vaporosa, que soterra vocais sob camadas de guitarras e microfonias orquestradas gentilmente, conferindo um tom elétrico à sua obra, sem que isso pareça ostensivo. Finalmente, como terceiro elemento diferenciador, Marissa tem um talento considerável como compositora. Suas canções, letra e música, são belas, inspiradas e com leve acento de mestras como Carole King ou mesmo Kate Bush, que, dependendo da época, conferem tonalidades sessentistas ou oitentistas às criações de Marissa. Além delas, Mazzy Star também é uma bela influência.

A produção de Randall Dunn joga a favor da cantora. Arranjos e instrumentos são colocados como facilitadores para que ela desfile soberana. Suas canções são olhares agridoces para a lua, para a noite, para paisagens que oscilam entre campo e cidade com tristeza, deixando claro que sua ênfase é sempre na solidão que as pessoas experimentam. Por ora surge algum acento capaz de aludir às clássicas canções Country, como na arrepiante faixa-título, quase uma canção de amor para o acaso. Noutras, vem uma crescente e fantástica composição como Walking, que remete a um imaginário entristecido de contemplação urbana diante do sonho de viver algo maior e ser limitado pelos muros de concreto e da sociedade.

Há vários momentos belos no álbum. A abertura com Divers Of The Dust reafirma esta tendência noturna e lírica de Marissa, se inserindo num rótulo que poderíamos cunhar e que teria o nome de Folk Noir. Tudo é melancólico e belo por aqui. Skyscraper mostra esta solidão urbana indesejada, desesperada, na qual somos inseridos e de onde parece muito difícil sair e experimentar algo diferente. Hungry Is The Ghost é exemplo de como o arranjo – espectral, em crescendo – pode ser benéfico. Tudo caminha para um clímax de beleza e desespero. Aqui a estética lembra um pouco dos trabalhos solo do grande Grant Lee Phillips. All The Colors Of The Dark entrega suas intenções logo no título, enquanto Janie In Love paira no ar noturno em meio a dúvidas sobre amor e retribuição tão velhas quanto a própria noite. O fecho com o arrepiante violão dedilhado de Dissolve enfatiza a capacidade vocal de Marissa.

Marissa Nadler é uma estrela, daquelas que aparecem brilhantes na noite menos iluminada. Sua obra é um pequeno milagre para quem espera aquela alquimia de beleza com tristeza em forma de música, feita especialmente para nos afundarmos na autocomiseração. Que atire a primeira pedra aquele/a que jamais mergulhou nestas águas. Belezura total.

Strangers em uma faixa: Drivers Of The Dust

 2,448 total views

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.