Resenhas

Mark Lanegan – Somebody’s Knocking

Neste LP, permanecem os temas tristes e densos comuns ao artista, mas há um esforço em tentar direcionar essa melancolia para a pista de dança

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Ano: 2019
Selo: Heavenly Recordings
# Faixas: 14
Estilos: Grunge, Indie Rock, Garage
Duração: 56'
Produção: Rob Marshall

Em uma obra tão extensa quanto a de Mark Lanegan, pode ser incorreto reduzi-la a um só gênero, dada a amplitude experimental de seu trabalho. O músico vem de uma tradição Grunge que começou nos anos 1980 com a banda Screaming Trees, um projeto caracterizado por sua sonoridade gritante, reflexo de uma época acelerada e confusa. A partir daí, sua desejo de expressar suas angústias fez com que ele criasse um projeto com canções sempre marcadas por temas reais, nem sempre agradáveis. É nessa procura que Mark registrou a pluralidade de sua dor, procurando contribuições de gêneros diferentes para serem transmissores de sua mensagem. Desde canções lamentosas do velho-oeste (Whiskey For The Holy Ghost, 1994) até passando pelas estridentes distorções de um híbrido Blues-Eletrônica (Blues Funeral, 2012). 

Dessa efusão de sonoridades, uma coisa fica clara: Mark Lanegan consegue captar o espírito de determinadas épocas com precisão. Nesse sentido, a década de 2010 é interpretada pelo compositor por meio de Something’s Knocking. Nesse LP, aquela temática densa e triste permanece, mas há um esforço de tentar direcionar este campo melancólico para a pista de dança à maneira de Mark Lanegan. O flerte nostálgico com a década de 1980 se apresenta na escolha de drum machines e timbres de sintetizadores característicos. 

Além disso, Mark revive em suas composições um toque de Rock/Grunge, com guitarras arrastadas e uma espécie de aura distópica. Assim, Mark capta a essência de uma década permeada por conflitos, mas que também procura em períodos passados, significados e conhecimentos para ressignificar o presente. Talvez não estejamos diante de suas composições mais inventivas, mas certamente este é um álbum que chama atenção por se comunicar conosco em um nível mais profundo.

Abrindo em ritmo acelerado, a faixa “Disbelief Suspension” traz batidas ríspidas aliadas ao vocal seco e rasgado do músico, nos arrebatando logo de primeira. “Letter Never Sent” se apoia em riffs de um Indie jovial para criar uma ironia, ao falar as contradições da modernidade. “Dark Disco Jag”, como o próprio nome sugere, compõe um cenário na qual a pista de dança entoa um viscosa balada Dance Music, com pinceladas de timbres fantasmagóricos de sintetizadores vintage. “Stitch It Up”, por sua vez, referencia um Grunge remodelado, com flertes com a música eletrônica.

Mark também não nega o seu lado singer-songwriter, pegando do Blues a aura necessária para compor “Paper Hat”. “Radio Silence” é o tipo da faixa que poderia ter sido composta por Yeah Yeah Yeahs: dispersa e afiada. E, por fim, a soturna “Two Bells Ringing At Once” revela seu lado introspectivo, em uma belíssima balada de piano oscilante. O artista mostra neste registro um talento inquestionável, mostrando aquilo que sabe fazer de melhor, apesar desta dinâmica não apresentar necessariamente algo inovador ou muito além das expectativas. Ainda assim, é um disco inquietante e enxerga no caos moderno um material precioso para costurar angústias e sentimentos.

(Somebody’s Knocking em uma faixa: “Dark Disco Jag”)

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BOM PARA QUEM OUVE: Mark Lanegan
MARCADORES: Garage, Grunge, Indie Rock

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.