Resenhas

Matthew Dear – Beams

O produtor hedonista conhecido pelo Micro-House se distancia do gênero para dar espaço ao arrastado mundo do Synthpop

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Ano: 2012
Selo: Gostly
# Faixas: 11
Estilos: New Wave, House, Synth Pop
Duração: 47:50
Nota: 4.0
Produção: Matthew Dear

Essa pode ser a resenha mais polêmica que já fiz, mas se é para entrar em defesa de um trabalho de qualidade, que se compre briga com outros críticos. Matthew Dear estourou como um produtor de música focado no Microhouse, um gênero com pequenas batidas ou samples dentro do House. Sucessos como Another e Tilda botaram o produtor no auge do estilo, mas parece que não é o que ele queria.

Em 2010, no seu quarto álbum de estúdio, Matthew veio com Black City, no qual se distanciou um pouco do Microhouse pra dar espaço, ainda que tímido, ao sombrio Synthpop. Um gosto mais urbano, “funkeado”, com Groove, pitadas de Jazz e Disco: uma boa receita pra dançar.

E então, o que seria um susto aos fãs, virou um suspense pra saber qual caminho Dear iria seguir. A resposta veio com o álbum de doze faixas lançado esse ano: Beams. A obra confirma o caminho no Synthpop – e suas influências dos 70s e 80s – que o produtor apresentou no anterior, mostrando o lado individual, tanto nas batidas quanto nas letras. E esse é um ponto forte – o vocal de Dear tem predominância em todas as faixas.

Beams traz uma veia mais eletrônica, um New Wave com guitarras distorcidas, baixo e uma overdose de sintetizadores. Talvez isso canse, vindo de um álbum antes praticamente baseado no ânimo, mas a sombriedade dos sintetizadores tem seu espaço depois de compreendido.

Beams traz o “acúmulo” de vocal com letras, desta vez, pintando um retrato de um homem feliz e satisfeito. O álbum inicia com Her Fantasy, já chutando a porta com o ponto mais alto de Beams. A alta frequência aqui brinca com suas influências nítidas no New Order com passeios no mais atual do Interpol. Em seguida, Earthforms traz, talvez, a linha de baixo mais interessante em todo álbum. Chegamos em Headcage e vemos a cara Dream Pop arrastado à la We Are the World que tantos desaprovam. A mesma linha segue em Overtime (em uma mistura de batidas e elementos difíceis de compreender) e Ahead of Myself.

Fighting is Futile vem com Funky em uma base House com micro-samples no fundo. Talvez a faixa que mais mostre, de forma completa, a cara do “novo” Matthew Dear. Já quase encerrando o álbum, temos Shake Me, uma faixa controversa na opinião de fãs e críticos. Trazendo um downtempo e samples sombrios, ela foge do que entendemos (e catalogamos) pelo músico. Serve como uma viagem de sinestesia, entre sussuros e o grave de Dear, tendo a ajuda de sintetizadores sutis que nos leva a uma atmosfera fria. Um acerto considerável.

E é exatamente aí que entra o que eu disse no começo. Posso causar polêmica porque estou completamente do lado de Beams. Um artista, depois de quatro álbuns, tem que suar o dobro pra manter atenção em cima do que já foi sucesso, mas é impossível catalogar como inteligente o uso da mesma fórmula sempre. Dear, assim como a maioria dos produtores, percebeu que a música deve ser reciclada diante das mais variadas influências, seja o Microhouse ou o New Wave. E aqui, ele mostra a variada gama de habilidades que tem, tanto como produtor, quanto de compositor, tecladista, guitarrista e DJ.

Por mais que seja menos agitado que Backstroke ou Asa Breed, agora o som não é monótono nem mastigado. Talvez não seja o melhor CD, mas tenho que afirmar que as doses de coragem e criatividade aqui não tiveram fim. Há quem pense que a boa produção mascare uma falta de proposta, ou que a ousadia em usar novos elementos tire o foco das batidas, mas prefiro acreditar que seja apenas um álbum degustativo. Beams tem um “quê” que talvez poucos entendam. É uma obra com camada sob camada, em que uma só leva de ouvidos não seja suficiente. Tipo de álbum que, cada vez que se ouve, entende um pouco a proposta de Dear. Como ele mesmo disse no álbum “Há apenas um em um milhão de corações que se sente o caminho, a maneira que eu faço”.

Com Beams, Matthew dá um passo à sua individualidade, talvez pra fazer o som que sempre quisesse fazer. É um álbum consistente, com uma ideia bem estruturada e bem produzida. Ele dá a cara à tapa a quem quiser criticar. Aqui, o que importa é o hedonismo.

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BOM PARA QUEM OUVE: New Order, Joy O, Hot Chip
ARTISTA: Matthew Dear
MARCADORES: House, New Wave, Synthpop

Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King