Resenhas

Mayer Hawthorne – Man About Town

Novo álbum vem ensolarado e falando da vida na Costa Oeste

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Ano: 2016
Selo: Vagrant
# Faixas: 10
Estilos: R&B, Soul Pop, AOR
Duração: 33:32
Nota: 3.5
Produção: Mayer Hawthorne

Ninguém pode – ou deve – cobrar de Mayer Hawthorne algum tipo de fidelidade estrita à Soul Music. Tampouco ele precisa demonstrar isso ou ir muito além do que se propõe a fazer: revisitar sonoridades da música negra americana dos anos 1960/70 com leveza e senso Pop. Mais ainda: tentar chegar de mansinho na cola de gente parecida com ele, especialmente a sensacional dupla Hall & Oates, que teve seu tempo de glória nas décadas de 1970 e 1980, fazendo exatamente isso: Soul Pop. A crítica musical também deve sossegar o facho e pensar que Mayer não faz esse tal de Neo Soul, ou então admitir que este rótulo não quer dizer nada além de reinterpretações de como a música negra americana soava no início dos anos 1980. Felizmente, Mayer Hawthorne vai além disso.

Este é o quarto álbum do sujeito, o primeiro a documentar sua mudança de ares. Mayer deixou seu estado natal de Michigan, perto da Costa Leste e partiu para o lado oposto, fixando residência na ensolarada Los Angeles e, claro, sua música não passou impune a isso. Nota-se uma discreta mudança de direção em privilégio do Soul Pop, mais ainda que nos discos anteriores, que procuravam demonstrar alguma fidelidade a parâmetros clássicos demais para Mayer, que não é um cantor de Soul, repito. Ele está mais para um dedicado e nerdificante estudioso do assunto, capaz de reproduzir sons e climas, mas não pode – e aqui voltamos ao início do texto – ser comparado aos mestres do assunto. Deixada esta questão de lado, é possível se divertir bastante com Man About Town e seus 33 minutos e meio de duração. Creia, não há desperdício por aqui, pelo contrário.

Mantendo a fidelidade meteorológica que os álbuns sobre a Califórnia guardam, o tempo aqui é sempre ensolarado. Não é um disco de canções praianas, mas estamos diante de um desfile de faixas que devem ser ouvidas a céu aberto ou, na pior das hipóteses, deitado de frente para um janelão em que o firmamento se apresenta azul. Três músicas chamam a atenção em especial: Cosmic Love, com levada chacundum de guitarras, baixo sinuoso e voz em falsete, emula muito do trabalho da obscura dupla britânica Charles And Eddie e seu sucesso Would I Lie To You, lá no meio dos anos 1990, que, por sua vez, lembrava alguma coisa que Smokey Robinson poderia fazer lá por 1982/83. Breakfast In Bed e Lingerie & Candlewax, uma logo após a outra, fazem uma louvável tentativa de revisitar os aspectos sensualizantes da Soul Music, naquela onda de comunhão com o divino por conta do amor e da presença da pessoa amada. Mayer se sai bem no que os americanos chamam de “slow jam”, ou seja, a proverbial “canção lentinha”. Tem metais, tem baixo digno, tem vocais interessantes, tem arranjo – a cargo dele – bem fiéis aos modelos originais setentistas.

Há surpresas também ao longo do percurso. Fancy Clothes tem aceno forte ao Reggae mais clássico em sua levada dolente, Love Like That pisa fundo nas aerodinâmicas cançonetas radiofônicas de Hall & Oates, enquanto fraseados de cordas dão o tom solene/amoroso para Get You Back, que lembra algo que o grande Charles Bradley poderia cantar por aí. O fecho chega sorrateiro e noturno com a boa Out Of Pocket. A melhor criação de Mayer neste álbum e, desde já, candidata a entrar na lista de melhores canções do ano, é a afofante The Valley, na qual nosso amigo se vale de uma cruza equilibradíssima entre os já mencionados Hall & Oates e o som Jazz Funk novaiorquino do grupo Steely Dan, instância musical das mais elevadas e difícil de ser emulada/igualada. Hawthorne surge com noção exata de uso de tecladinhos redondos, guitarras e demais instrumentos, apostando na economia do arranjo, para tratar de uma declaração de amor à região urbana de LA. Man About Town é redondo, com influências bem aplicadas e personalidade bem definida.

Dizem as notícias que Mayer Hawthorne é um maníaco por controle de todas as etapas da criação e que teria aceito integrar o elenco do selo Vagrant, em Los Angeles, justamente para isso. A julgar pelo bom resultado, a mudança foi boa. Se mantiver a qualidade, Mayer vai inscrever seu nome na galeria dos bons tradutores Pop da música negra americana, uma honra para poucos.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.